Eu estava em Positano, tentando viver como uma italiana que não deve boletos emocionais, quando me chega esse pacote de forró romântico com cheiro de hit e recaída evitada por milagre. Seu Desejo resolveu seguir abrindo o audiovisual “O Tempo Não Para” com dois lançamentos de uma vez só nesta sexta, 17 de abril. “Do Chão Não Passa”, parceria com Murilo Huff, e “Outro Fulano” estreiam à meia-noite nas plataformas, com clipes saindo depois no YouTube, ao meio-dia e às 18h. É a velha tática do entretenimento moderno, mexe com o coração do povo e ainda organiza a agenda do sofrimento.
O carro-chefe da rodada vem com pedigree de dor bem administrada. “Do Chão Não Passa” aposta numa narrativa de quem se entregou inteiro, montou casa, rotina e ilusão doméstica, mas acabou descobrindo que amor solitário também vence prazo de validade. A letra vem carregada daquele tipo de frase que já nasce pronta para legenda, indireta e vídeo de casal desfeito com dignidade duvidosa. Quando o refrão avisa que “se cair do chão não passa”, a banda entrega exatamente o que o forró romântico sabe vender como ninguém, humilhação superada com maquiagem intacta.



E tem contexto, meu amor, porque hit sem embalagem bonita hoje não anda nem até a esquina. O audiovisual “O Tempo Não Para” foi gravado numa noite de multidão no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com mais de 15 mil pessoas e um elenco de participações que mostra a fome da banda de crescer sem pedir licença. Já teve Nattanzinho Lima, Flay e ainda vem Luísa Sonza por aí, o que transforma o projeto numa espécie de condomínio musical onde sempre tem alguém interessante entrando pelo portão.
No meio disso tudo, Yara Tchê e Alessandro seguem fazendo o que sabem, misturar repertório inédito e regravação com uma identidade muito clara de banda que conhece o próprio público e não está a passeio. Seu Desejo entendeu uma coisa que muita gente ainda finge estudar em reunião com PowerPoint, conexão popular não se fabrica com pose, se constrói com música que gruda, frase que dói e lançamento bem amarrado. Murilo Huff entra nesse jogo como reforço de peso, e entra no lugar certo, numa faixa que pede voz, presença e aquela sofrência masculina de exportação.
No fim, eu acho um luxo quando o forró assume sem vergonha que quer fazer o povo cantar, sofrer e mandar mensagem errada às 00h17. Seu Desejo vem ampliando espaço no cenário nacional porque sabe transformar sentimento em produto sem perder a alma da coisa. E isso, entre nós, vale mais do que muita produção caríssima que sai por aí cheirando a fumaça de palco e absolutamente a nada.