Menu
Kátia Flávia
Kátia Flávia

“Se acharem que estou morto, é melhor”: vício em crack leva ex-Corinthians a viver nas ruas

Prestes a completar 50 anos, ex-atacante de Corinthians, Vasco e Ponte Preta vive há cerca de dois meses em uma praça de Pirituba, em São Paulo

Kátia Flávia

02/09/2026 15h15

Régis Pitbull vive em um abrigo improvisado numa praça de Pirituba, em São Paulo

Régis Pitbull vive em um abrigo improvisado numa praça de Pirituba, em São Paulo

Régis Fernandes da Silva, o Régis Pitbull, ex-jogador de Corinthians, Vasco e Ponte Preta, vive em situação de rua há cerca de dois meses em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. Aos 49 anos, ele enfrenta dependência química, dívidas e a perda do apartamento onde morava.

Eu estava escolhendo flores na Cobal do Humaitá quando li a reportagem do GE a vontade de comentar com deboche simplesmente sumiu. Régis foi um nome conhecido do futebol, passou por clubes no Brasil, Japão, Turquia e Coreia do Sul, teve carro, estabilidade e histórias de churrascaria em que nem o deixavam pagar a conta. Agora, vive sob lonas, cobertores e papelão numa praça do bairro onde cresceu.

A rua virou a última alternativa depois de temporadas morando de favor com amigos e familiares. O apartamento próprio entrou em ação judicial por dívidas de condomínio e IPTU. Régis deixou o imóvel após ser preso, em 2025, por agredir o síndico, episódio que também resultou em medida protetiva.

A rotina dele hoje inclui pedir café com muitas colheres de açúcar num restaurante próximo, onde consegue carregar o celular, usar o banheiro e, algumas vezes, receber refeições. Funcionários relataram que ele aparece diariamente e que são raros os dias em que está sóbrio. Eu devolvi uma flor para o balde, porque tem notícia que faz até a escolha entre lírio e margarida perder completamente a importância.

Régis convive com a dependência química desde os primeiros anos como jogador. Ele chegou a sofrer duas suspensões por doping relacionado ao uso de maconha e passou por internação para reabilitação em 2022, mas teve uma recaída menos de um mês após deixar o tratamento. Hoje, ele rejeita nova internação e diz que precisa de trabalho para reorganizar a própria vida.

O ex-atacante mantém uma bicicleta azul para circular por Pirituba, visitar conhecidos e comprar drogas. Torcedores do Corinthians já foram até a praça conversar com ele e oferecer ajuda, mas familiares e amigos ouvidos pelo GE apontam que a dificuldade de aceitar tratamento é o maior obstáculo para uma recuperação.

Régis completa 50 anos em 22 de setembro e disse que gostaria de reunir amigos, embora admita não encontrar motivos para celebrar a fase atual. “Não quero que ninguém saiba que eu existo. Se acharem que estou morto, é melhor. Não sou um coitadinho”, afirmou. Saí da Cobal com as flores na mão e uma sensação muito menos leve: dependência não apaga a história de ninguém, mas pode deixar uma pessoa perigosamente sozinha dentro dela.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado