Amores, o babado é fortíssimo e o mundo das artes está em polvorosa. Não sou só eu que ando de olho aberto, não. Minha amiga Scarlett Johansson já botou a boca no trombone lá em Hollywood. E aqui no Brasil, o pessoal da economia criativa está com o coração na mão.
A pergunta que não quer calar é: a Inteligência Artificial vem para ser nossa assistente ou quer roubar o papel principal? Pegue um drink que vou explicar a situação!
A indústria cinematográfica de Hollywood atravessa um momento intenso em torno do “marco regulatório das IAs”. A preocupação expressa na carta contra às IAs, que já reúne 700 assinaturas, incluindo a da atriz Scarlett Johansson, alerta para o uso transparente da tecnologia – movimento que encontra terreno fértil no Brasil.
“Percebemos, cada vez mais, que a inteligência artificial vai muito além de uma simples ferramenta; ela é uma tecnologia de propósito geral com impacto em todos os setores da sociedade e da economia. No campo da cultura e da economia criativa, a IA tem o potencial de transformar todas as etapas da cadeia, da criação e distribuição ao consumo”, afirma Beth Ponte, gestora cultural e consultora da Deck. “É legítimo e necessário que profissionais criativos e artistas estejam engajados no debate sobre a regulação da IA, especialmente a generativa. Esse movimento vem ocorrendo nos Estados Unidos e também no Brasil. No setor de dublagem, por exemplo, atores e atrizes de voz já sentem esses efeitos e se mobilizam politicamente por meio de movimentos como o ‘Dublagem Viva’, lutando por uma regulação que proteja a categoria diante das novas tecnologias”, complementa.

Mobilizando, de maneira inédita, a opinião de 1,5 mil profissionais da cultura e economia criativa, atuantes em 16 áreas diferentes, a gestora Beth Ponte é autora da pesquisa de pulso ‘Percepção da IA na Cultura e Economia Criativa’, realizada pela consultoria brasileira Deck – Inteligência Digital para a Cultura. A pesquisa aborda expectativas de profissionais da área, e suas preocupações, diante da expansão da IA generativa.
Cruzando as Américas, a preocupação com o marco regulatório das IAs resvalou no misto de ‘apreensão’ e ‘esperança’, entre profissionais locais. Isso porquê, no Brasil, cerca de 35,5% dos criativos consideram provável que seus empregos sejam substituídos por sistemas de IA, pelos próximos cinco anos. Em contrapartida, 66,2% destes acreditam que a IA tem potencial para melhorar o mercado criativo – à médio prazo.
A percepção de ‘risco de substituição’ é ainda maior entre profissionais dos segmentos de Cinema, Rádio e TV (44,9%), demonstrando que a preocupação não é exclusiva dos atores americanos. A percepção sobre a probabilidade de substituição também é alta entre profissionais da Música (44,3%), seguido por Editorial (35,3%) e Gestão/Produção Cultural (34%).
Segundo a especialista, mapear os impactos da IA na economia criativa é essencial. Ela lembra que o setor é responsável por 3,5% do PIB nacional (nos Estados Unidos a participação das artes e cultura corresponde a 4,2% – 2023) , o que demonstra a relevância da indústria criativa para o desenvolvimento econômico e social dos dois países. E o audiovisual, em específico, tem um papel importante: um estudo da Oxford Economics, em 2025, revelou que no Brasil o segmento gerou R$ 70,2 bilhões e 608 mil empregos, o equivalente à 0,6% do PIB nacional em 2024.
“Nossa pesquisa acende um alerta neste momento com as discussões em torno do PL 2338, que propõe o Marco Regulatório da Inteligência Artificial no país.. É muito preocupante que mais de ⅓ dos respondentes tema a substituição de seus empregos nos próximos 5 anos. Claro que essa previsão não deve se confirmar para todos. Para estimar e mitigar os impactos da inteligência artificial, é fundamental considerar a enorme diversidade de profissões dentro da economia criativa, já que cada setor apresenta diferentes níveis de exposição e risco de substituição pela tecnologia. No Brasil, essa análise ganha uma camada extra de complexidade devido ao alto grau de informalidade e ao perfil das empresas, em sua maioria de pequeno porte”, explica Beth.

À fim de reduzir esses impactos, a pesquisa ‘Percepção da IA na Cultura e Economia Criativa’ mostra que a demanda por capacitação e formações futuras sobre IA aplicada ao setor cultural impera em mais de 60% dos entrevistados. Entre as principais demandas citadas pelos profissionais, estão automação de tarefas e processos de trabalho (65%), seguido pela gestão de projetos culturais com IA (64,8%) e o uso de ferramentas de IA em setores específicos (64,4%).
Segundo a consultora da Deck e revisora da pesquisa, Letícia Fernandes, é indispensável investir na formação dos profissionais da cultura em competências digitais, para que o Brasil siga as recomendações da UNESCO, estabelecidas no documento ‘Recomendações sobre a ética da Inteligência Artificial’.
“Termos como ‘reskilling’ (requalificação profissional) e o ‘upskilling’ (aprimoramento de competências) deve ganhar força ao longo de 2026 e pela próxima meia década. Estamos falando de setores que movimentam bilhões, todos os anos, responsável diretamente pela geração de emprego e renda que sustenta milhares de famílias. O cuidado que devemos ter com a indústria criativa é de capacitar os profissionais que atuam em todos os elos da cadeia de produção, para que a IA deixe de ser considerada uma ‘ameaça’ aos postos de trabalho e seja entendida como uma ferramenta, que, usada de forma ética e consciente, pode se tornar uma aliada capaz de tornar o trabalho mais ágil – em um mundo que pede cada vez mais velocidade na entrega”, completa Letícia.
Apesar dos sinais de alerta, o relatório da Deck mostra que os profissionais já estão acompanhando às mudanças. Ainda segundo o estudo, aproximadamente 93,5% dos profissionais consideram ‘provável’ ou ‘muito provável’ que a inteligência artificial altere a forma como seu trabalho é realizado nos próximos 5 anos.

Confira os top insights da pesquisa de ‘Percepção da IA na Cultura e Economia Criativa’ abaixo:
- 93,5% consideram ‘provável’ ou ‘muito provável’ que a inteligência artificial altere a forma como seu trabalho é realizado nos próximos cinco anos;
- 35,5% consideram provável a substituição de seus empregos por IA nos próximos cinco anos, com maior percepção de risco nos setores de Cinema, Rádio e TV (44,9%) e Música (44,3%);
- 62,3% dos respondentes utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa com frequência;
- 66,2% acreditam que a IA tem potencial para melhorar o mercado de trabalho criativo nos próximos anos;
- A pesquisa contou com respostas de 1555 profissionais de 16 setores da cultura e da economia criativa. Áreas de atuação mais representadas: Gestão e/ou produção cultural (31%), Cinema, rádio e TV (11%), Ensino e/ou pesquisa (10,3%), Artes visuais e fotografia (9%), Música (8%) e Artes Cênicas (7,6%);
- Vínculos profissionais: 55,5% trabalham de forma autônoma em diferentes formatos (MEI, freelancer, empresa própria) e 25,4% possuem vínculo empregatício fixo (CLT ou serviço público);
- Perfil dos respondentes: A amostra da pesquisa é composta majoritariamente por adultos entre 35 e 54 anos (55,5%), com participação significativa de jovens e jovens adultos entre 18 e 34 anos (26,3%). Em termos de escolaridade, 84,5% dos respondentes possuem graduação completa ou pós-graduação. Quanto à composição de gênero, 55,1% se identificam como mulheres, 41,4% como homens, 1,7% como não bináries, e 2,5% com outras identificações. Em relação à cor/raça, 47,6% se declararam brancos, 48,5% negros (sendo 33,3% pardos e 15,2% pretos), 1,2% indígenas e 1,1% amarelos;
- Os dados foram coletados entre junho e setembro de 2025, de forma voluntária entre os participantes do curso de ‘Inteligência Artificial aplicada à Cultura’, promovido pela Escola Solano Trindade de Formação e Qualificação Artística, Técnica e Cultura (Escult), do Ministério da Cultura (MINC), em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).