Eu avisei que televisão não gosta de estabilidade. Gosta de corte seco, mudança de última hora e comunicado com cheiro de reunião fechada. O Casos de Família foi mais uma vítima desse esporte olímpico do SBT. Sai da rotina diária e vai para o sábado, como quem é colocado de castigo com justificativa bonita.
A própria Christina Rocha contou tudo no Instagram, antes que a versão açucarada chegasse à imprensa. Direta, sem teatrinho e sem aquele sorriso de quem finge concordar com o chefe, ela avisou que feliz não está. E não está mesmo. Nem tentou disfarçar.
O detalhe que eu adoro é o roteiro da decisão. O SBT fez enquete em grupo oficial de WhatsApp perguntando se o público preferia emoção diária ou maratona de sábado. Consulta pública feita, democracia encenada. Independentemente do resultado, a direção escolheu o sábado. Perguntar para quê, né? Só para constar na ata imaginária.
Christina deixou claro que a audiência é boa e que o programa vive um momento forte. Mesmo assim, perdeu espaço. Porque em televisão, meu amor, audiência ajuda, mas não garante nada. Grade é poder. E poder não costuma pedir opinião para quem está na frente da câmera.
Para ocupar o buraco, o SBT estica o Fofocalizando e dá mais tempo para Coração Indomável. Sai o barraco real, entra o drama importado. É uma escolha editorial, sim, mas também é um recado. Casos de Família segue existindo, mas fora do fluxo principal. Sobrevive, não manda mais.
No comunicado oficial, a emissora elogia o programa, diz que ele vive um de seus melhores momentos e reforça o vínculo com o público. Esse é o clássico texto que diz “te amo”, enquanto troca a fechadura. Valoriza na nota, espreme na grade.
Christina prometeu falar mais depois. Eu traduzo. Quando a poeira baixar e o sangue esfriar, ela deve contar o que deu para engolir e o que ficou atravessado. Porque apresentadora experiente não reclama à toa, muito menos publicamente. Quando fala, é porque a porta já bateu por dentro.
O fato é simples e nada romântico. O Casos de Família diário acabou. Não acabou por fracasso. Acabou por decisão. E quando um programa com identidade popular, história e audiência é empurrado para o sábado, não é ajuste técnico. É escolha de prioridade.