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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Sandra Delgado, a cineasta que filmou o Brasil que não chega ao tapete vermelho

Chamada de “esposa de Wagner Moura” no tapete vermelho, Sandra Delgado construiu uma carreira inteira filmando favelas, teatro de grupo, cangaço e povos indígenas, sempre longe do glamour que adora apagar histórias incômodas

Kátia Flávia

12/01/2026 12h40

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Wagner Moura e a esposa, Sandra Delgado, no Globo de Ouro. Foto: Getty Images

Na noite em que Wagner Moura fez história no Globo de Ouro, a legenda internacional correu ligeira. “Wife of Brazilian star”. Simples, raso, preguiçoso. No Brasil, o carimbo foi outro. “Esposa discreta”. A curiosidade veio tarde, quase constrangida, como se alguém tivesse esquecido de fazer a lição básica. Afinal, quem é Sandra Delgado quando não está ao lado do marido famoso?

Resposta curta. Uma cineasta que passou décadas apontando a câmera para tudo aquilo que o país prefere cortar do enquadramento.

Nascida em Salvador, formada em Jornalismo, Sandra começou bem longe de festival com tapete e coquetel. Trabalhou em projetos de comunicação popular no Rio de Janeiro, dentro de favelas como Rocinha, Maré e Complexo do Alemão, documentando o cotidiano de quem quase nunca vira pauta. Fotografou, editou, expôs, ganhou prêmios ligados a direitos humanos e fotografia documental. Fora desse circuito, seguiu invisível para o grande público. O rótulo colou fácil, a obra não.

A obsessão dela sempre foi memória. Não aquela embalada para exportação, mas a que insiste em sobreviver apesar do descaso. Em instalações fotográficas, misturou imagens, objetos pessoais e depoimentos em áudio, sem transformar ninguém em exotismo social. O gesto é constante. Registrar com cuidado o que o Brasil costuma atravessar correndo.

No teatro, virou cronista de bastidor. Acompanhou por anos processos criativos de nomes como Aderbal Freire Filho, Zé Celso Martinez Corrêa, Amir Haddad e Domingos Oliveira. Foram centenas de horas de ensaios, debates, erros, descobertas. Desse mergulho nasceu uma série documental exibida na TV por assinatura, hoje um arquivo raro de um teatro brasileiro que todo mundo cita e quase ninguém preserva.

Mesmo ao filmar processos ligados a Wagner Moura, como os bastidores de “Hamlet”, o foco nunca foi o astro. O interesse sempre esteve no trabalho coletivo, nos técnicos, nos atores, na engrenagem que sustenta o palco. Glamour não rende memória. Processo rende.

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No domingo (11), Sandra acompanhou o esposo Wagner Moura no Globo de Ouro 2026. Foto: Mike Blake/Reuters

Nos últimos anos, a câmera de Sandra avançou para outras feridas nacionais. Como roteirista e pesquisadora de uma série de streaming sobre Maria Bonita e o cangaço, ajudou a reposicionar a narrativa pelo ponto de vista feminino, lidando com maternidade, desejo e violência doméstica em meio à guerra do sertão. Quem assiste talvez nem desconfie do tempo gasto para arrancar as mulheres desse apagamento histórico.

Outro projeto em desenvolvimento é um longa de ficção inspirado na trajetória da fotógrafa Claudia Andujar junto ao povo Yanomami. Pesquisa pesada, arquivos, viagens, contato direto com um dos capítulos mais brutais da história recente do país, marcado por garimpo, obras predatórias e omissão do Estado. De novo, o Brasil que não costuma ganhar close bonito.

Em paralelo, Sandra dirige um documentário sobre Marilena Ansaldi, pioneira da dança-teatro no Brasil. Uma artista fundamental, pouco lembrada, agora acompanhada nos últimos anos de vida. Um acerto de contas com a própria biografia e com o esquecimento que adora engolir mulheres que abriram caminhos inteiros.

Quando as fotos do Globo de Ouro 2026 viralizaram, a pergunta mais buscada foi “quem é a esposa de Wagner Moura?”. A ordem talvez esteja errada. Quem é Wagner Moura ao lado de uma cineasta que passou a vida inteira filmando ditadura, violência de Estado, teatro de grupo, sertão e povos indígenas? A resposta não cabe numa legenda apressada. E talvez a história mais interessante daquele tapete vermelho seja justamente essa que insiste em ficar atrás da câmera, enquanto tenta impedir que o Brasil finja que nunca se viu.

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