Meus amores, eu confesso que tive que ajeitar o cabelo imaginário para processar esse babado cult com cheiro de inteligência old school. Enquanto muita gente trata o xadrez como passatempo de mesa silenciosa e cara de quem corrige prova com caneta tinteiro, Rubens Filguth chega com Xadrez na Veia querendo puxar o jogo para o centro da vida real, da carreira, das decisões e daquelas encruzilhadas em que a pessoa precisa pensar três jogadas à frente para não acabar abraçada no próprio caos.
O livro vem com um subtítulo bem claro, Memórias, aprendizados e práticas de um Mestre Internacional, e entrega exatamente essa promessa. Filguth, que é Mestre e Árbitro Internacional de Xadrez, costura no volume uma autobiografia atravessada por competição, bastidor, método de raciocínio e visão estratégica. Eu gosto muito desse tipo de personagem, meu bem. É aquele homem que passou décadas olhando para um tabuleiro e resolveu contar ao público que a peça mexe ali, mas a cabeça trabalha em tudo.
A obra aparece como uma síntese madura de uma trajetória longa, disciplinada e cheia de convicção. Segundo o material, Rubens revisita episódios marcantes, encara os próprios equívocos, celebra conquistas e abre ao leitor o raciocínio por trás de decisões importantes. Isso dá ao livro uma cara menos escolar e muito mais humana. Sai daquela imagem engessada do especialista inalcançável e entra numa seara em que experiência, erro, cálculo e adaptação viram material de leitura.

Também achei curioso, e bastante elegante, o modo como o livro empurra o xadrez para fora do clube dos iniciados. Filguth propõe que os fundamentos do tabuleiro podem ser aplicados à gestão, ao mundo dos negócios e às escolhas pessoais. Aí, meus fofoqueiros de elite, eu já vejo a cena inteira. O xadrez, que sempre teve pose de primo intelectual da família, resolve tirar o blazer de tweed e sentar à mesa com executivo, estudante, leitor comum e gente tentando organizar a própria vida sem sair movendo rei para o lado errado.
Outro ponto forte do material é o olhar para a história do xadrez no Brasil. A narrativa registra mais de duas décadas do campo enxadrístico nacional, trazendo eventos, iniciativas de difusão e personagens que ajudaram a ampliar o espaço da modalidade no país. Há uma frase destacada no texto que bate forte. Apesar do crescimento de popularidade que o xadrez viveu nos últimos tempos, impulsionado por mudanças nas regras de tempo, pela série O Gambito da Rainha e por ações de divulgação, o esporte ainda permanece meio apagado em muitos ambientes do cotidiano brasileiro. E aqui eu faço uma pausa dramática, porque essa observação tem cara de diagnóstico certeiro.
Rubens Filguth sabe do que está falando. Além da vivência como mestre e árbitro internacional, ele é formado em Letras, construiu carreira como auditor fiscal da Receita Federal e chega a esse lançamento trazendo um currículo considerável no tema. Xadrez na Veia é seu nono livro sobre a modalidade. Oito obras anteriores já saíram de suas mãos, e duas delas foram traduzidas para o espanhol e distribuídas na Argentina, no México e na Espanha. Ou seja, o autor já circula nesse tabuleiro editorial com a segurança de quem conhece a casa, os corredores e o peso da própria assinatura.
O livro tem 232 páginas, foi publicado pela editora Sabedoria Universal e chega ao público por R$ 64,99. A proposta é clara. Mostrar como método, preparo e visão de longo prazo podem transformar desafio em oportunidade, dentro e fora do jogo. Eu sei que parece papo de gente muito centrada, mas há uma coisa saborosa nisso tudo. Filguth pega um universo cercado por aura de disciplina rígida e o transforma em narrativa de trajetória, reflexão e repertório. A inteligência aqui aparece com biografia, com lembrança, com tropeço e com insistência.
Também vale notar a camada quase militante da empreitada. O livro reforça um ciclo literário dedicado a fortalecer a base bibliográfica do xadrez no Brasil. Para quem acompanha o tema, isso pesa. Para quem não acompanha, já serve como porta de entrada. E eu adoro uma obra que consegue olhar para o iniciado e para o curioso sem expulsar ninguém da sala.
Rubens, que eu batizei mentalmente de rei do cálculo com memória afetiva, entrega um lançamento que tenta provar que o tabuleiro não termina nas 64 casas. Ele escapa para a vida profissional, entra nas relações, passa pela leitura de cenário, pede sangue frio e cobra decisão. E vamos combinar, meu amor, pouca coisa parece tão contemporânea quanto isso. Em tempos de gente movendo peça no impulso e chamando isso de estratégia, aparece um mestre internacional lembrando que pensar ainda é um ato profundamente elegante.