Estava na varanda da casa que aluguei em Sintra, vendo a neblina descer sobre a serra no fim da tarde, quando uma amiga de São Paulo ligou com a voz baixa. Ronaldo José Neves de Carvalho, o homem que transformou a Drogaria São Paulo numa das maiores empresas do varejo brasileiro, morreu nesta quinta, aos 82 anos. O Grupo DPSP confirmou a morte em nota de pesar e não divulgou a causa nem detalhes sobre velório e sepultamento.
Ronaldo nasceu em São Paulo em 22 de maio de 1944, um ano depois de o pai, Thomaz de Carvalho, fundar a drogaria ao lado de um grupo de sócios, ainda como negócio de venda de medicamentos no atacado. Formou se engenheiro mecânico pelo ITA e entrou na empresa da família em 1971, aos 27 anos, quando a rede tinha cerca de dez lojas. Hoje o grupo soma aproximadamente 1.700 unidades e ocupa o segundo lugar do varejo farmacêutico brasileiro.
O crescimento teve a assinatura dele em decisões que o setor inteiro acabou copiando. Foi um dos primeiros a manter farmácia aberta 24 horas, apostando que os taxistas da madrugada fariam a propaganda boca a boca da marca. Criou programas de desconto para aposentados, investiu em marca forte numa época em que farmácia era só balcão e comandou a compra do Drogão e a fusão com a Drogarias Pacheco, que deu origem ao grupo DPSP em 2011. Teve papel central também na criação da Abrafarma, a associação que reúne as grandes redes do país.
Quem conviveu com ele descreve um engenheiro que fazia conta de tudo, inclusive da distância ideal entre duas lojas da mesma rede, que ele calculava em 500 metros. No escritório da Avenida Angélica, dividia espaço com miniaturas de carros, brinquedos e histórias em quadrinhos. Dentro da empresa, incentivou programas de leitura e formação, e manteve por perto funcionários que passaram mais de 50 anos na companhia.
Ronaldo deixa os filhos Flávio Carvalho e Paulo Carvalho, que seguem no Conselho do grupo. Desliguei o telefone e fiquei pensando em quantas vezes uma farmácia de luz acesa às três da manhã salvou a noite de alguém no Brasil. Muita gente vai lembrar dele assim, sem nem saber o nome do homem que teve essa ideia.