Amados, começo pelo desconforto, porque essa história pede. Todo brasileiro já se apaixonou, se indignou ou se sentiu herói com a voz de Ricardo Schnetzer. Mesmo sem saber o nome. Mesmo sem reconhecer o rosto. A fama dele sempre foi auditiva, íntima, instalada direto na memória afetiva.
Foi Schnetzer quem deu sotaque brasileiro ao charme de Tom Cruise, à intensidade de Al Pacino, à elegância de Richard Gere. Também atravessou gerações em novelas mexicanas, animações e séries que moldaram infância, adolescência e até certo ideal de heroísmo doméstico. Capitão Planeta, Cavaleiros do Zodíaco, Apenas um Show. Uma carreira inteira costurada em uma única garganta.
Aos 72 anos, após ser diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica, ele morreu cercado de homenagens e textos emocionados. Mas a contradição veio antes do adeus. Para bancar tratamento, plano de saúde e cuidadoras, Schnetzer precisou recorrer a uma vaquinha virtual. A meta era de 200 mil reais. Pouco mais de 118 mil foram arrecadados.
Aqui, eu paro o delineador no ar. Enquanto as franquias que ele ajudou a eternizar seguem rendendo milhões mundo afora, o dono da voz precisava pedir ajuda pública para continuar vivendo com dignidade. Não é detalhe lateral, é o centro da discussão.
O mercado brasileiro adora importar glamour, mas trata mal quem traduz esse glamour para o público. Dubladores viram patrimônio emocional coletivo, mas continuam invisíveis no contrato, no plano de saúde, na estrutura mínima de proteção. Aplauso vem fácil. Amparo, nem tanto.
Eu registro essa história sem dourar a pílula. Porque lembrar do nome depois da morte é um gesto bonito, mas tardio. Valorizar enquanto a voz ainda está em cena exige algo que o mercado insiste em evitar: responsabilidade.