Amadas, o mercado fitness brasileiro anda obcecado. Tudo precisa ser jovem, sarado, urgente e iluminado como feed de quem nunca suou de verdade. Aí surge a Ultra Academia e faz o que poucas marcas têm coragem. Olha para o lado, ignora o boy de 22 anos fazendo careta no espelho e chama Reynaldo Gianecchini para ser o novo rosto da marca.
Sim, amores. Gianecchini. 53 anos. Sem crise, sem desculpa, sem pedido de licença.
Enquanto o mercado vende sofrimento embalado em slogan agressivo, a Ultra chega com um recado quase insolente de tão simples. Corpo não é castigo. Movimento não é penitência. Academia não precisa parecer sala de tortura emocional. E ninguém melhor para bancar essa conversa do que um homem que passou décadas sendo tratado como galã decorativo e resolveu envelhecer sem pedir perdão.
Gianecchini entra nessa parceria sabendo exatamente onde pisa. Ele nunca foi só o corpo bonito da novela das oito, embora tenham tentado empurrar isso por anos. Agora, vira símbolo de algo que o fitness tradicional detesta admitir. Que saúde atravessa fases, ritmos, limites e escolhas. Que gente real não vive de antes e depois.
A Ultra não quer o grito do no pain no gain. Quer gente que entre na academia sem medo, sem constrangimento e sem aquela sensação de estar no lugar errado por não caber no molde. O ator encaixa como luva nesse discurso. Ele carrega uma trajetória que o público acompanhou com rugas, mudanças, pausas e retomadas. Isso gera identificação de verdade, não aquele desejo artificial de virar outra pessoa em 30 dias.

O mais delicioso dessa escolha é o incômodo que ela causa. Porque sim, incomoda. Incomoda o mercado que lucra com insegurança. Incomoda a lógica do corpo perfeito como obrigação. Incomoda quem ainda acha que academia é só para quem já está pronto.
Ao lado de Fernanda Souza, Gianecchini passa a representar institucionalmente essa Ultra que quer conversar com quem sempre se sentiu deslocado no ambiente fitness. Gente que trabalha muito, que envelhece, que teve doença, que mudou de corpo, que cansou de se odiar no espelho. Isso não é discurso bonitinho. É posicionamento.
A fala do próprio Gianecchini deixa isso claro, sem floreio motivacional. Ele reconhece o rótulo de galã, mas aponta o limite desse lugar. Diz que escolheu outros caminhos, outros papéis e outras versões de si mesmo. Aos 53, o convite da Ultra faz sentido porque respeita ritmo, consciência e cuidado. Palavra perigosa no mercado fitness, eu sei.
Enquanto isso, a Ultra cresce. Mais de 200 unidades assinadas, quase 100 em operação, presença em 14 estados e cerca de 200 mil alunos. Cresce sem vender humilhação como método. Cresce oferecendo espaço claro, ambiente convidativo e uma proposta que não trata o aluno como fracassado em potencial.
No fundo, essa parceria não fala só de academia. Fala de envelhecer em público sem virar piada. Fala de existir fora do padrão sem pedir desculpa. Fala de parar de vender sofrimento como virtude.
E, convenhamos, ver um galã amadurecido ocupar esse lugar sem precisar performar juventude eterna é um refresco. Um tapa elegante. Um lembrete de que corpo não vence prêmio por obediência.
A Ultra entendeu. E Gianecchini bancou.