Há pessoas que não apenas permanecem, circulam. A memória não é fotografia, é faísca. Não cabem em porta-retratos, não aceitam moldura, não param tempo suficiente para serem descritas por inteiro. Quando vão embora, não deixam vazio: tornam-se campo elétrico.
Não penso como corpo físico, mas como energia em trânsito. Intensidades que produzem movimento. Amizade, às vezes, é isso: alterar a pressão atmosférica das nossas rotinas.
Não é linear. É feita de arrancadas, entusiasmos súbitos, mergulhos sem aviso. Sentimento assim não faz planos, faz combustão.
Há uma vida por ignição. E toda ignição tem algo de sagrado: um silêncio raro e, por isso, inesquecível. Encontros.
A memória não guarda a pessoa, mas projeta vetores. Existem direções de força. Aponta para fora e para dentro, ao mesmo tempo, em expansão. Há quem chame de excesso. Mas o excesso, visto de perto, é apenas vitalidade sem filtro.
Algumas amizades respiram; outras ventilam o mundo. A ausência não é vazio, é a retirada de um motor. Como se certos dias perdessem rotação. Como se Sampa baixasse alguns decibéis invisíveis. E motores não desaparecem: deixam inércia.
É na inércia que ainda existe amor, nos impulsos que ficaram instalados, nos gestos que copiamos sem perceber, nas vozes que ecoam sem som. Presença não é apenas estar, é continuar acontecendo.
Retratos comuns tentam fixar traços. O retrato afetivo é diferente ele aceita a quebra, o corte, o ruído. É feito de cenas soltas, símbolos, sobreposições. Pulsa em detalhes imperfeitos e respira em memórias desencontradas. Só faz sentido quando o cristal, mesmo quebrado, continua refletindo.
Se fosse possível capturar um retrato afetivo fragmentado, não seria com linhas, mas por um triz. Não no contorno, mas na vibração. No instante em que a memória quase escapa e, justamente por isso, revela sua verdade: nua, imperfeita, pulsante, humana. Porque o afeto não posa, atravessa. Não se deixa fixar, ressoa. E é nessa ressonância, feita de rachaduras luminosas, que o vivido deixa de ser passado e volta a ser presença.