Eu estava num almoço no Jardim Botânico brigando com uma carta de vinhos que tinha três rótulos maravilhosos e onze escritos em fonte pequena pra ninguém perceber a margem, quando um amigo sommelier me liga do outro lado do salão, literalmente, pra soprar a pauta antes de eu pedir a sobremesa. Larguei o cardápio, peguei o telefone e ouvi. Vocês sabem que eu largo qualquer coisa por uma boa conversa, menos taça cheia.
O papo é o seguinte: o canal Sabor & Arte exibe na terça-feira, 28 de julho, às 23h, uma edição inédita do Adega Sabor & Arte com o chef Renato Viotti Nogueira. Ele é empresário, produtor de eventos gastronômicos e ganhou projeção nacional participando do MasterChef Brasil nas edições de 2020 e 2021. Senta com o publisher Christian Burgos e com a sommelière Cecilia Aldaz pra falar de gastronomia, vinho e empreendedorismo, que é a santíssima trindade de quem descobriu que aplauso não paga fornecedor.

E aqui entra a parte que me interessou de verdade. O programa é produzido em parceria com a Revista Adega, vai ao ar mensalmente e virou um espaço onde vinho, cozinha e cultura se cruzam sem aquele verniz de comercial de azeite. Renato é reconhecido por valorizar ingredientes, produtores e tradições da Serra da Mantiqueira e do Vale do Paraíba, região que passou os últimos anos deixando de ser rota de fim de semana pra virar circuito gastronômico com nome, sotaque e produtor identificado. Quem acompanha o setor sabe que esse movimento de valorização regional deixou de ser discurso bonito e virou modelo de negócio, com queijo, cachaça, café e hospitalidade sustentando restaurante que antes vivia de turista de feriado prolongado.
A leitura fina fica por conta do que ele topou discutir: os desafios de transformar visibilidade em negócio. Gente, isso é a confissão mais honesta que um ex-participante de reality culinário pode fazer em rede nacional. A televisão entrega audiência, entrega reconhecimento em aeroporto e entrega convite pra evento com open bar, mas não entrega capital de giro, equipe treinada nem cliente recorrente numa terça-feira de chuva. A safra de chefs saída do MasterChef se dividiu basicamente em dois grupos, os que entenderam que fama é vitrine e não estoque, e os que passaram anos esperando o telefone tocar de novo. Renato construiu uma trajetória conectando cozinha, hospitalidade e experiências gastronômicas, ou seja, escolheu a vitrine e foi montar a loja atrás dela. O episódio ainda trata da relação entre vinho e cozinha e de como a harmonização amplia a experiência à mesa, tema que costuma ser tratado com solenidade de missa e que funciona muito melhor quando alguém explica em português.
O detalhe que me diverte é o horário. Vinte e três horas de uma terça-feira, exatamente o momento em que o brasileiro já jantou, já se arrependeu do jantar e está aberto a ouvir alguém falando de harmonização com autoridade. Eu, particularmente, vou assistir com uma taça na mão, porque acho falta de educação ver programa sobre vinho bebendo água com gás.