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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Renato Machado se foi e levou um pedaço da nossa TV junto

Eu recebi essa notícia agora, ainda tentando organizar os pensamentos, mas preciso escrever porque não consigo ficar calada diante disso. Renato Machado morreu nesta quinta-feira, 16 de julho, aos 83 anos, e eu estou arrasada. Sério, arrasada mesmo. Não é exagero de colunista, não. Esse homem fez parte da manhã de milhões de brasileiros por quinze anos e da minha formação como jornalista de um jeito que eu nem sei explicar direito agora.

Kátia Flávia

16/07/2026 11h00

Renato Machado deixa um legado de mais de 50 anos dedicados ao jornalismo brasileiro.

Renato Machado deixa um legado de mais de 50 anos dedicados ao jornalismo brasileiro.

Fiquei sabendo pelo meu contato lá dentro da Globo, aquele que sempre me avisa as coisas importantes antes de virarem release. A voz dele no telefone já dizia tudo antes mesmo de eu processar a frase completa. E eu, que sempre tenho resposta pronta pra tudo nessa coluna, fiquei sem saber o que escrever primeiro.

Renato não foi só um âncora. Foi um cara que atravessou meio século de jornalismo carregando uma elegância que hoje é rara demais. Então deixa eu contar pra vocês, com o coração meio apertado, os dez momentos que resumem por que esse homem foi gigante.

O histórico apresentador do Bom Dia Brasil marcou gerações com elegância, credibilidade e serenidade.
O histórico apresentador do Bom Dia Brasil marcou gerações com elegância, credibilidade e serenidade.

1. Ele quase virou diplomata, não jornalista

Passou no Itamaraty, sonho da mãe dele, mas o destino escolheu outro caminho. Antes disso ainda pisou em palco, fez teatro com gente como Jô Soares dirigindo e estreou no cinema em 1969. Um homem de muitas vidas antes da vida que a gente conheceu.

2. Londres foi o primeiro amor profissional

Em 1967 ele foi para a BBC como estagiário. Um moço do Rio de Janeiro aprendendo rádio em inglês. Ninguém imaginava que aquela cidade viraria casa dele em dois momentos diferentes da carreira, décadas depois.

3. Quatorze anos cobrindo o mundo pelo Jornal do Brasil

Foi lá que ele virou editor de Internacional bem na época da renúncia de Richard Nixon. Imagina a régua de exigência que isso deixou nesse profissional.

4. Entrou na Globo doando sangue, literalmente

A primeira reportagem dele na emissora, em 1982, foi sobre doação de órgãos e começou com a câmera filmando o próprio sangue dele sendo retirado. Isso resume o tipo de entrega que ele sempre teve.

5. Cobriu Chernobyl com uma frase e um gesto

Ali Kamel dizia que o stand-up dele à beira de uma lagoa, na Suécia, explicando a tragédia nuclear de Chernobyl, mostrava a capacidade rara que ele tinha de simplificar o complexo sem nunca ser raso.

6. Viveu a Guerra do Golfo em Tel Aviv sob bombardeio

Ele esteve em Tel Aviv quando a cidade foi atacada pelas forças de Saddam Hussein durante a Guerra do Golfo. Correspondente de guerra de verdade, gente. Não era blindagem para selfie, era jornalismo feito onde a história acontecia.

7. Quinze anos comandando o Bom Dia Brasil

De 1996 a 2011. Foi o rosto que acordava o país junto com o café da manhã. Reformulou o formato, equilibrou política com cultura e virou sinônimo do próprio Bom Dia Brasil.

8. Circulou por praticamente todas as bancadas da Globo

Passou pelo Jornal da Globo, RJTV e também substituiu William Bonner e Fátima Bernardes no Jornal Nacional. Um profissional que nunca ficou preso a um único lugar.

9. Foi indicado ao Emmy já na fase do Globo Repórter

Voltou de Londres em 2016 e emplacou uma reportagem sobre uma bailarina da Mangueira que se tornou estrela em Nova York. Deixou a Globo apenas em novembro de 2021, depois de mais de quatro décadas de casa.

10. Virou autoridade em vinhos sem nunca abandonar o jornalismo

Foi colunista de O Globo, parceiro de Carlos Alberto Sardenberg na CBN e dividiu tela com o chef Claude Troisgros no Menu Confiança. Até 2024, já longe da televisão aberta, ainda gravava documentários sobre vinhos na Provence, aos 81 anos, com a mesma vontade de contar histórias.

Eu amo esse homem, gente. Amo o jornalismo que ele fez, amo a serenidade que ele carregava nas coberturas mais difíceis do mundo, amo que ele nunca precisou gritar para ser ouvido. O Terra o apelidou de “dândi do telejornalismo”, e é isso mesmo: um dândi que nunca precisou aparecer mais do que a notícia.

De correspondente internacional a referência na TV, Renato Machado escreveu um dos capítulos mais importantes do telejornalismo brasileiro.
De correspondente internacional a referência na TV, Renato Machado escreveu um dos capítulos mais importantes do telejornalismo brasileiro.

Fica o meu abraço apertado para Mônica Morel e toda a família neste momento. E fica também o meu muito obrigada, Renato, por mostrar para tanta gente da profissão que é possível ser rigoroso, elegante e gentil ao mesmo tempo. O telejornalismo brasileiro perde uma referência. Nós perdemos um contador de histórias que fez da credibilidade seu maior legado.

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