Eu tinha acabado de descer da bike e subido na esteira para uns quinze minutinhos de caminhada inclinada, aquela penitência que a gente faz fingindo que é descanso, quando o telefone tocou dentro do porta-objetos. Atendi ofegante, com fone na orelha e toalha no pescoço, e do outro lado da linha vinha a voz de quem estava no Velocitta no domingo me contando tudo em detalhe. Baixei a velocidade da esteira, porque essa história merecia atenção.
Vamos ao que aconteceu. Raphael Reis terminou a temporada do TCR Brasil na segunda posição do campeonato, num desfecho que doeu porque ele chegou à etapa final como líder e ainda manteve a ponta depois da corrida de sábado, quando cruzou em quarto. Na decisão de domingo, o regulamento de grid invertido colocou ele em nono, e o carro simplesmente não respondeu. Nos primeiros minutos ele já sentiu que havia coisa errada, identificou o problema na junta homocinética, tentou uma ultrapassagem, passou reto numa curva e foi para os boxes encerrar a disputa. Título perdido no mecânico, que é o jeito mais cruel de perder qualquer coisa no automobilismo, porque não tem erro de pilotagem para chorar nem rival para culpar.

Repare no tom da declaração dele, que é onde mora a leitura mais interessante. O piloto lamentou, disse que a falha atrapalhou a corrida inteira e que tentou seguir até onde deu, e emendou um bola para frente mirando as etapas do IMSA Michelin Pilot Challenge. Nenhuma alfinetada na equipe, nenhuma indireta para o fornecedor da peça, nenhum drama de bastidor. Quem acompanha automobilismo brasileiro sabe que a tentação de transformar frustração em manchete é enorme, e que muito piloto já queimou contrato por um áudio quente na saída do box. Ele foi na direção contrária, e isso tem valor de mercado.
Porque a temporada dele, olhando de longe, foi excelente. Venceu o TCR Super Challenge em Interlagos fazendo dupla com Felipe Fraga, somou mais quatro pódios entre Curvelo, Cascavel e Cuiabá, e sustentou a liderança do campeonato até a última prova, correndo pela W2 Pro GP com apoio do Banco BRB. Um vice construído assim não tem nada de consolação. E ele nem tem tempo de ficar remoendo, porque segue competindo na América do Norte pelo IMSA Michelin Pilot Challenge em dupla com Celso Neto, e a próxima etapa já é em agosto, em circuito de gente grande.

Desliguei a ligação, aumentei a esteira e pensei que existe metáfora demais sobre isso na vida, mas a verdade é simples: uma pecinha do tamanho de um punho decidiu uma temporada inteira. Raphael, meu querido, parabéns pela prata e vai lá para o Norte resolver a pendência. E se aparecer alguém para falar mal do seu domingo, manda a conta da junta homocinética.