Nesta sexta-feira, o brasiliense Raphael Reis, o “Raphinha” do TCR, encarou os treinos livres da etapa decisiva do TCR Brasil no Autódromo Velocitta, em Mogi Guaçu, debaixo de chuva o dia inteiro. Andando com o Cupra Leon VZ #77 preparado pela W2 Pro GP, ele fechou o primeiro treino em sétimo e o segundo em oitavo lugar, sempre no top 10, segundo release da assessoria Ferrari Promo. Nada de espetacular no cronômetro, mas ele nem precisava: chega à etapa final na liderança do campeonato, com 228 pontos contra 225 do argentino Leonel Pernía, uma vantagem de míseros três pontos.
Neste sábado tem classificação de manhã e primeira corrida à tarde. No domingo, a decisão: corrida derradeira, transmissão ao vivo pelos canais do TCR Brasil e do TCR South America no YouTube, com quatro pilotos ainda matematicamente vivos na briga pelo título. E aqui mora o verdadeiro tempero: Reis nunca venceu o TCR Brasil. Foi terceiro colocado em 2023, terceiro de novo em 2024 e vice-campeão em 2025, sempre no pelotão de frente, nunca no degrau mais alto. Chega agora à última chance da temporada em busca do título inédito, e ainda quer repetir 2021, ano em que cravou a primeira pole position da história do TCR na América do Sul. Fora isso, coleciona uma prata no FIA Motorsport Games de Valência, em 2024, e o título de único piloto que nunca faltou a uma largada desde que a categoria nasceu na América do Sul, o que em automobilismo é currículo de gente séria, não só de gente sortuda.

E olha que o menino nem está parado entre uma etapa e outra: para 2026 ele também assinou com a Stallion Motorsports para correr o IMSA Michelin Pilot Challenge, nos Estados Unidos, dividindo o carro com Celso Neto. Ou seja, disputa título no Brasil e faz temporada internacional ao mesmo tempo, sem escala em fuso horário que preste.
No Instagram, o roteiro é impecável demais para ser por acaso: agradecimento à W2 Pro GP, agradecimento à Cupra, agradecimento ao “@bancobrbesportes” em quase toda legenda, foto de pódio, foto de troféu, zero climinha, zero indireta. É o feed de quem sabe exatamente quem paga a conta e não vai fazer feio na frente de quem assina o cheque. Coerência de patrocinado nota dez.

A leitura que ninguém mais vai fazer
Agora, gente, o verdadeiro enredo por trás da corrida está no extrato, não no cronômetro. O Banco de Brasília, o BRB, patrocinador que estampa o nome de Reis desde que ele era promessa, está no centro do maior escândalo bancário do Distrito Federal em anos: o ex-presidente do banco, Paulo Henrique Costa, foi preso pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, por seu papel no rombo bilionário do Banco Master. Foi sob a gestão dele que o BRB destinou mais de R$ 121 milhões ao automobilismo nacional, incluindo os R$ 4,2 milhões que Reis e Enzo Elias dividiram entre 2023 e 2024.
Com a crise, o banco cortou o orçamento de patrocínios em mais de 60% para 2026 e está sob auditoria do Tribunal de Contas do DF por gastos como camarote na F1 e sala vip de aeroporto. O próprio campeonato que Reis disputa perdeu o BRB como patrocinador máster para o Bradesco, que assumiu os naming rights da Stock Car, do TCR Brasil e do TCR South America ainda em junho. Ou seja: o campeonato agora é do Bradesco, mas o piloto, individualmente, continua com o nome do BRB no capacete, porque contrato de atleta e naming right de série são coisas diferentes, e alguém em Brasília precisa continuar explicando isso ao Tribunal de Contas.

Traduzindo para quem não lê Diário Oficial de manhã: o banco público que está sendo investigado por gastar rios de dinheiro em marketing esportivo em vez de causa social decidiu, mesmo cortando tudo, manter o piloto de Brasília na briga pelo título justamente na etapa mais decisiva do ano. Estratégico? Sem dúvida. Coincidência de timing, no meio de tanta CPI e tanto TCDF? Duvido.
No fim das contas, domingo tem dois vencedores possíveis em jogo: Raphael Reis, que corre atrás do primeiro título da carreira depois de dois terceiros lugares e um vice de tanto insistir, e o departamento de comunicação do BRB, que torce para a taça sair antes que o Tribunal de Contas termine de contar. Eu, no salto, só espero que ninguém me convide para o camarote: dado o momento do patrocinador, acho que nem cadeira tem garantida.