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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Ramagem bancou o intocável nos EUA e acabou engolido pelo sistema

Ele jurou, em voz firme, que não voltaria algemado ao Brasil porque estava no “país da liberdade”. Onze dias depois, a pose encontrou a porta gelada da imigração americana

Kátia Flávia

15/04/2026 8h30

Ramagem foi preso nos Estados Unidos após deixar o Brasil depois de condenação ligada à trama golpista | Créditos: STF

Ramagem foi preso nos Estados Unidos após deixar o Brasil depois de condenação ligada à trama golpista | Créditos: STF

Eu estava ali, com aquele humor de quem ainda nem decidiu entre café ou escândalo, quando o roteiro ficou pronto sozinho. Alexandre Ramagem falou no programa de Allan dos Santos como quem tinha achado um camarote vitalício dentro dos Estados Unidos. Disse que Lula queria levá-lo de volta, disse que não ia conseguir, disse que ali era o país da liberdade. Pois bem. Onze dias depois, foi detido pelo ICE. A vida tem uma pontualidade cínica quando resolve desmentir alguém em público.

O fato é direto, e eu gosto assim. Ramagem foi preso nos Estados Unidos após deixar o Brasil depois de condenação ligada à trama golpista. A cooperação entre autoridades brasileiras e americanas já estava em curso, com pedido formal de extradição, e Lula havia declarado que pediu a Donald Trump a entrega de brasileiros foragidos em território americano. Ou seja, o discurso dele não caiu do céu, veio como resposta política. Só que a resposta da realidade foi bem mais eficiente.

No áudio, o trecho é precioso porque entrega tudo. Ele não fala como alguém acuado. Fala como quem se sente blindado, acolhido, quase ungido pelo cenário americano. Chama as condenações de ilícitas, falsas, fraudulentas, e vende a tese de que os Estados Unidos seriam uma espécie de santuário pessoal da sua versão dos fatos. É aí que o personagem se complica, porque quando alguém transforma refúgio em performance, qualquer queda vira espetáculo.

E o bastidor simbólico dessa história é uma delícia jornalística, desculpa. O homem apostou na retórica da soberania americana e acabou enroscado justamente na burocracia americana. A liberdade do discurso bateu de frente com a liberdade que o Estado tem de te deter, te processar migratoriamente e decidir o que faz com o seu destino. O sujeito vendeu fortaleza e entregou excesso de confiança. Em novela, isso sempre termina com a porta abrindo sem aviso.

No fim, o que ficou não foi a fala sobre liberdade. Ficou o tombo. Porque a frase foi feita para soar como desafio, mas envelheceu em onze dias e virou legenda pronta para a própria derrocada. Tem gente que entra na História pelo gesto. Ramagem, nessa, entrou pelo eco ruim da própria certeza.

Confira o vídeo:

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