Estava aqui na Costa Amalfitana relendo os documentos do caso Perry quando me deparei com o detalhe que quase ninguém está publicando direito. O nome de Matthew Perry vende manchete. O outro morto, o de 2019, não tem assessoria, não tem fandom, não tem série na Netflix. Existe só no processo.
A mulher conhecida como Rainha da Cetamina se declarou culpada por manter um imóvel para distribuição de entorpecentes e por múltiplas acusações de venda da droga, incluindo uma que resultou em morte. Essa admissão abrange dois óbitos: o fornecimento da dose que chegou até Matthew Perry e a transação feita com um cliente que morreu poucas horas depois de comprar frascos diretamente com ela em 2019, sem médicos no meio, sem intermediários, sem nenhum colchão entre o tráfico e a vítima.

A promotoria foi precisa ao construir o argumento de reincidência. A acusada operava há anos como fornecedora de cetamina para clientes de alto poder aquisitivo em Los Angeles, e o caso de 2019 demonstrava que ela já sabia, com anos de antecedência, o risco letal do que colocava nas mãos dos seus compradores. No caso Perry, a cadeia era mais complexa, com médicos e assistentes no caminho, mas a origem da droga levava à mesma pessoa.
A lei americana permite sentenças severas quando a distribuição resulta em morte, e o histórico de dois óbitos associados ao mesmo fornecedor foi determinante para o cálculo final. O juiz não concentrou o peso da pena na comoção em torno da celebridade. Levou em conta a engrenagem como um todo, o padrão, a reiteração, e o fato de que essa estrutura já havia cobrado uma vida antes de Perry entrar na equação.
O homem que morreu em 2019 praticamente desapareceu das coberturas do caso. Essa ausência diz algo sobre como a imprensa distribui atenção e sobre quem a Justiça precisa incluir no processo para que o público finalmente preste atenção em uma rede de tráfico que estava ativa há anos. A tragédia de Matthew Perry não foi um acidente isolado. Foi o episódio mais famoso de uma história que já tinha começado muito antes.