Eu, Kátia Flávia, já peguei a pipoca, o bloquinho de anotações e o olhar desconfiado. A novela decidiu brincar de detetive nos últimos capítulos e assumiu sem pudor o jogo do quem matou, aquele que deixa todo mundo culpado até prova em contrário.
Ferette, vivido por Murilo Benício, já tinha data marcada para cair, isso nunca foi segredo. O tempero agora é outro. A história espalha suspeitas por quase todos os núcleos e cria um clima de paranoia elegante, do tipo que rende teoria em mesa de bar e grupo de WhatsApp.
Entre os alvos da investigação aparece Misael, interpretado por Belo, viúvo que chega a atirar em Ferette antes do desfecho. O tiro não mata, mas deixa claro que vontade não faltava. Arminda, personagem de Grazi Massafera, amante e cúmplice em vários momentos, também entra no radar com cara de quem sabe mais do que diz.
A lista cresce quando a novela puxa o fio familiar. Zenilda, vivida por Andréia Horta, ex mulher que troca mágoa por sede de justiça, vira suspeita oficial. Rogério, papel de Eduardo Moscovis, sócio traído mais de uma vez, entra naturalmente na roda. Até aqui, tudo dentro do esperado para um vilão que coleciona inimigos como quem junta troféu.
O detalhe que faz o público levantar a sobrancelha é Leonardo, o filho de Ferette, interpretado por Pedro Novaes. O rapaz rompe com o pai depois de descobrir o esquema criminoso dos medicamentos falsificados e passa a agir contra o próprio sobrenome. Não afirmo nada, só observo. Em novela, ruptura familiar costuma vir com carga dramática extra.
A escolha pelo grande mistério conversa diretamente com a memória afetiva de quem lembra do impacto de Vale Tudo. O trio de autores, liderado por Aguinaldo Silva, sabe exatamente onde pisa e assume o risco de transformar o final num tabuleiro de suspeitas bem calculado.
O plano original era outro. Ferette fugiria, seria caçado fora do país e encontrado morto longe de cena. Esse final foi abandonado para dar lugar a uma investigação dentro da própria trama, com direito a falsas pistas, tensões familiares e aquele prazer meio perverso de desconfiar de todo mundo.