Amores acordei institucional nesta sexta-feira, mas não por muito tempo. Bastou abrir a internet para descobrir que o Congresso Nacional, aquele lugar onde o povo jura que se fazem leis, também pode funcionar como um salão de beleza com microfone aberto e transmissão oficial.
A confusão aconteceu durante a sessão que analisava o veto ao chamado PL da Dosimetria, projeto que reduz penas de condenados por atos antidemocráticos de 8 de janeiro e tentativa de golpe de Estado (Câmara dos Deputados). No meio do bate-boca, enquanto Talíria Petrone discutia com Flávio Bolsonaro, uma voz ainda não identificada soltou a frase que incendiou a sessão: “Quem toma até marido da colega vai respeitar regimento?”
Pois é, minha filha. A pauta era pena, golpe, Constituição e regimento, mas uma alma sebosa decidiu abrir o Código do Babado no plenário.
A frase fazia referência a um rumor antigo envolvendo Talíria Petrone, Orlando Silva e Fernanda Melchionna, publicado em fevereiro pelo Portal LeoDias. Na época, Orlando negou as acusações, Talíria disse por meio de sua assessoria que não comentaria assuntos da vida privada, e a equipe de Fernanda informou que preferia não comentar o caso.
Ou seja: o que apareceu ontem não foi exatamente uma fofoca nova. Foi uma fofoca velha, embalada em papel de presente, jogada no meio do Congresso e usada como arma política contra uma deputada.
O detalhe mais saboroso, e também mais grave, é que o autor da fala segue sem identificação pública. Segundo o Metrópoles, a frase foi dita por um parlamentar ainda não identificado, possivelmente bolsonarista, durante o tumulto no plenário . Depois da baixaria, Davi Alcolumbre mandou cortar os microfones e reclamou que os parlamentares estavam “passando dos limites” e entrando na vida íntima das pessoas .
Eu , que moro no Rio e já vi barraco em porta de boate, em condomínio e em grupo de família, preciso reconhecer: Brasília tem um talento especial para transformar assunto sério em barraco com crachá.
Enquanto o país discutia uma votação que pode beneficiar condenados pelos atos de 8 de janeiro, o plenário conseguiu produzir uma cena paralela de constrangimento público (Câmara dos Deputados). A Câmara derrubou o veto por 318 votos a 144, e o Senado fez o mesmo por 49 votos a 24 (Câmara dos Deputados).
Mas o que viralizou mesmo foi a pergunta: quem foi o parlamentar fofoqueiro?
Até agora, oficialmente, ninguém sabe. E quando ninguém sabe, minha filha, é porque muita gente ouviu, muita gente entendeu, mas pouca gente quer botar o dedo no ventilador.
O caso também expõe uma velha técnica da política brasileira: quando falta argumento, sobra insinuação. E quando a vítima é mulher, a vida íntima quase sempre vira munição antes mesmo de qualquer discussão sobre mérito.
Talíria Petrone é deputada federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, embora parte das republicações tenha tratado a parlamentar de forma errada como se fosse de São Paulo (Câmara dos Deputados). O erro é pequeno, mas revelador: tem gente reproduzindo o babado com tanta pressa que nem checa a ficha oficial da personagem principal.
No fim das contas, o Congresso aprovou a derrubada do veto, a dosimetria virou notícia política e Talíria virou assunto de busca por causa de uma frase atravessada. A pergunta que sobra é simples: se o ataque foi feito no plenário, com microfones, câmeras e dezenas de parlamentares presentes, por que o fofoqueiro da República ainda está escondido?
Não acuso ninguém. Apenas observo, abano o leque e pergunto: quem foi que levou o veneno de corredor para o microfone do Congresso?