Amadas,encontrado morto dentro de casa, na Vila Congonhas, zona sul de São Paulo, Miguel Abdalla Neto, aos 76 anos, encerra uma história que sempre correu paralela ao crime Richthofen. O corpo estava ao lado da cama, já em estado de decomposição, sem sinais de violência ou arrombamento. A polícia trata o caso como morte suspeita, com hipótese inicial de mal súbito ou causa natural, aguardando laudo oficial.
Mas reduzir Miguel ao título de “tio de Suzane” é apagar quase tudo o que ele foi depois de 2002.
Médico ginecologista, carreira sólida e vida discreta, Miguel teve o destino virado do avesso quando a irmã, Marísia, e o cunhado, Manfred, foram assassinados pela própria filha. Enquanto o país assistia, em choque, ao julgamento e à condenação de Suzane, alguém precisava cuidar do filho que sobrou. Esse alguém foi ele.
Miguel assumiu a tutela de Andreas ainda adolescente. Garantiu casa, escola, proteção e uma rotina minimamente estável em meio ao caos midiático. Sem entrevistas, sem frases de efeito, sem palco. O trabalho sujo ficou com ele.
Além da guarda, veio o peso jurídico. Inventário, bens, patrimônio, disputas familiares. Miguel também foi o responsável por administrar os interesses financeiros ligados a Andreas e se posicionou firmemente contra qualquer tentativa de Suzane acessar a herança dos pais que assassinou. Essa postura o transformou, nos bastidores, no grande antagonista civil da sobrinha.
Houve conflitos, processos e desconfianças. Com o tempo, Andreas assumiu formalmente a posição de inventariante, e Miguel se afastou da linha de frente, mas nunca da imagem que carregou até o fim. A de guardião silencioso do filho sobrevivente.
Durante mais de duas décadas, Miguel viveu as consequências de um crime que não cometeu. Não puxou holofotes, não capitalizou a tragédia, não virou personagem de documentário. Sustentou, sozinho, a parte menos glamourosa da história. A que não rende audiência, mas sustenta vidas.
Agora, sua morte fecha um capítulo pouco explorado do caso Richthofen. O do homem que segurou o que restou enquanto o Brasil olhava para outro lado.