Eu vi essa menina entrar na casa e pensei. Lá vem mais uma fitness sorridente prometendo fogo e entrega nada. Dois minutos depois, eu já estava emocionalmente envolvida, ajustando a almofada e chamando a moça de protagonista oficial do meu folhetim particular. BBB 26 ganhou uma personagem que chega com currículo de novela das nove e rotina de mulher adulta antes da idade.
Gabriela tem 21 anos, cara de quem aguenta o tranco e uma biografia que pesa mais que mala de viagem para paredão falso. Saiu da Casa de Vidro do Sudeste direto para a sala mais vigiada do Brasil carregando clínica de crianças autistas, tabuleiro de doces na rua, conta de casa, faculdade quase trancada e uma família inteira apoiada nas costas dela. Eu chamo de heroína do cotidiano com sorriso treinado.

Ela se apresenta com corpo forte, fala acelerada e aquela energia de quem nunca dorme direito. Por trás do sorrisão, tem uma estudante de Psicologia que quase largou tudo por falta de dinheiro e uma filha que sustenta a casa numa lógica muito conhecida por quem cresce cedo demais. Enquanto muita gente entra no BBB para se descobrir, Gabriela entra já sabendo exatamente quem é. E isso assusta colega, viu.
O cuidado atravessa tudo na vida dela. Trabalha com crianças autistas, convive com a saúde mental da mãe, tem uma irmã autista que também exige atenção constante. O discurso dela não vem de livro bonito, vem da prática diária de quem precisa ter paciência, limite e jogo de cintura antes mesmo do café da manhã. Dentro da casa, isso vira radar ligado o tempo inteiro.

Ela mesma se define como fofa e brava. Eu traduzo. Doce até pisarem no calo, firme na hora que sente desrespeito. Nos primeiros dias, já cutucou machismo, já ouviu gracinha atravessada e já virou assunto por causa da virgindade, tratada por colega como se fosse ficha de personagem. Gabriela reage com repertório, chama soberba pelo nome e não baixa a cabeça para discurso torto. Isso gera barulho, claro. Reality sem barulho é planta decorativa.
O que essa história entrega para quem assiste de casa é mais profundo do que VT bonito. Gabriela representa a juventude que trabalha demais, cuida de todo mundo, quase desiste do sonho por falta de dinheiro e segue mesmo assim. Ela entra no BBB trazendo uma pergunta incômoda que muita gente finge não ouvir. Até onde dá para se doar sem se perder de si mesma.

Eu observo, anoto e aviso. Essa menina não entrou para passar pano nem para pedir colo. Entrou para viver o jogo com a bagagem inteira, dores incluídas. Protagonista nasce assim. Antes do primeiro paredão, antes do primeiro cancelamento e bem antes do descanso que ela nunca teve.