Gente, eu estava aqui em Cosme Velho, noite de terça, quando o telefone começou a vibrar com Salvador mandando mensagem. O Troféu Armandinho e Irmãos Macedo, que deveria ser uma noitinha linda de celebração da música baiana, virou cena de filme. Daniela Mercury pegou o microfone, olhou para Edson Gomes e pediu publicamente que ele fosse “carinhoso” com a esposa. Disse que não aceita violência contra mulheres. Edson subiu ao palco e cobrou provas na hora: “Eu quero que ela prove quem é que eu espanco.” Daniela pediu desculpas. O ambiente ficou daquele jeito que todo mundo finge que não aconteceu nada mas todo mundo sabe que aconteceu tudo.
Pra quem não sabe quem é Edson Gomes: estamos falando de um dos maiores nomes do reggae brasileiro, nascido em Cachoeira, na Bahia, com mais de cinco décadas de estrada e um catálogo que inclui “Árvore”, “Camelô”, “Liberdade” e “Criminalidade”. Letras que denunciam racismo, violência policial e desigualdade. Um artista que construiu a carreira inteira falando pelos oprimidos.


Exatamente por isso o episódio ficou tão desconfortável pra tanta gente ao mesmo tempo.
O que acelerou o incêndio nas redes foi o resgate de uma história que já tinha circulado em fevereiro. A cantora Laurinha Arantes, ex-Cheiro de Amor, e a deputada estadual Olívia Santana comentaram uma publicação associando o cantor a uma suposta agressão contra uma ex-companheira.
Olívia foi direta: disse que uma amiga “chegava no trabalho machucada” e que ela própria encorajou a amiga a se separar dele em 1999. Não há processo judicial público confirmado, Edson nega tudo, mas a sobreposição de relatos vindos de fontes diferentes, em momentos distintos, sem articulação aparente entre si, é exatamente o tipo de coisa que a internet não esquece e não deixa morrer.
A contradição que está no centro disso tudo é pesada. Um artista que cantou a opressão durante décadas sendo cobrado pelo mesmo critério que defendeu em verso. Posso entender o incômodo de ser acusado publicamente sem processo. Mas também entendo que quando mulheres falam, em anos diferentes, sem combinação prévia, convergindo para o mesmo nome, o padrão pede atenção. Daniela pode ter errado o momento e o método. Isso não invalida o assunto.
Por enquanto o placar está assim: acusação feita no palco, negativa feita no palco, relatos antigos voltando à tona nas redes, e uma premiação baiana que vai ser lembrada muito mais pelo climão do que pelos premiados. A noite era de festa. Virou documentário.