Vamos direto ao ponto, porque o fandom não gosta de rodeio. Stranger Things terminou e deixou muita gente inconformada. Will Byers e Mike Wheeler não viraram casal. Não teve beijo, não teve declaração final, não teve fanfic canonizada. Teve silêncio, desconforto e uma escolha que incomodou mais do que qualquer final trágico.
Desde o começo da série, Will Byers foi desenhado como o menino fora do eixo. Sensível, deslocado, estranho demais para a masculinidade padrão de Hawkins. O subtexto virou texto e o público acompanhou Will se descobrir gay e apaixonado pelo melhor amigo, Mike Wheeler, em um dos arcos mais comentados da TV recente.
A internet fez o que sempre faz. Criou ship, teoria, vídeo em câmera lenta e análise de olhar. Para muita gente, o final justo seria transformar essa trajetória em romance oficial. A série, no entanto, decidiu não recompensar o sofrimento queer com beijo cinematográfico.

Will fala o que sente. Mike escuta. Não corresponde da mesma forma. E ninguém vira vilão por isso. Não há punição, não há afastamento definitivo, não há trauma explorado como espetáculo. O que sobra é uma relação atravessada por dor, mas sustentada por afeto. E isso, curiosamente, irrita parte do público.
A pergunta que paira no ar é simples. Representatividade só conta quando termina em casal? Stranger Things responde que não e bate de frente com a expectativa de que toda narrativa queer precisa de romance para ser validada.
Nesse cenário entra Gaten Matarazzo, que acabou virando personagem paralelo dessa discussão. Ao comentar em entrevistas que o bonito da relação de Will e Mike é justamente o fato de eles conseguirem permanecer amigos durante um período difícil de autoconhecimento, o ator reforça o foco na maturidade emocional, não na fanfic ideal.
Quando Gaten aparece de sutiã em conteúdos promocionais e redes sociais, o gesto vira assunto, sobe nas buscas e funciona como metáfora perfeita. Ele tensiona a masculinidade, zomba do olhar normativo e cutuca um fandom acostumado a interpretar qualquer quebra de gênero como pista de romance escondido. É humor, mas também é recado.
Dentro do universo da série, essa escolha é ainda mais potente. Em uma narrativa inspirada nos anos 80, marcada por homofobia, silêncio e medo, ver um garoto gay confessar seus sentimentos e ainda encontrar no amigo hétero um porto seguro já é uma ruptura importante com a masculinidade tóxica dominante.
Essa amizade queer masculina é rara na cultura pop. Normalmente, o segredo destrói tudo ou o ship vira casal e a amizade desaparece. Aqui, a série aposta em um meio-termo desconfortável, mas muito mais próximo da experiência real de muitos jovens queer. Amar alguém que não te ama do mesmo jeito e, ainda assim, continuar ali.
Ao negar o fan service, Stranger Things frustra shippers, mas oferece outra ideia de final feliz. Will não ganha o namorado idealizado, mas ganha algo que, para muitos garotos queer, ainda parece ficção científica. Um amigo hétero que não rejeita, não agride e não desaparece.
O adeus da série não entrega o casal que parte do público queria. Entrega algo mais raro. Dois meninos que atravessam trauma, desejo e frustração sem romper o vínculo que os une desde o começo. Will segue mais consciente de quem é. Mike permanece ao seu lado. Não como prêmio romântico, mas como aliado.
Pode não ser o final mais confortável. Mas é um dos mais honestos. Às vezes, o ship não vira casal. E, ainda assim, o afeto permanece. Só que fora do roteiro da fanfic.