Gente, o que começou como mais um barraco de reality show ganhou outro peso depois da saída de Pedro do Big Brother Brasil 26. A acusação feita por Jordana de que ele teria tentado beijá-la à força dentro da despensa tirou o caso do entretenimento e colocou tudo no colo da polícia. A Delegacia da Mulher no Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar possível crime de importunação sexual, usando como base as imagens gravadas dentro da casa e os depoimentos que ainda serão colhidos.
Nas redes sociais, muita gente tentou tratar o episódio como exagero ou confusão típica de confinamento. A investigação segue por outro caminho. A pergunta central é se houve ato libidinoso sem consentimento, ainda que por poucos segundos. Esse tipo de conduta está previsto no artigo 215-A do Código Penal, criado pela lei 13.718, que enquadra situações como beijo forçado, toque invasivo em transporte público e abordagens desse tipo. Não existe margem para relativizar com desculpas de clima, bebida ou brincadeira.

O reality entra nessa história como um elemento decisivo. O BBB funciona, na prática, como um sistema de vigilância permanente. Tudo fica registrado, inclusive cenas que não vão ao ar na edição da TV aberta. Esse material pode ser requisitado pela polícia e analisado sem corte, sem trilha sonora e sem narrativa construída para o público. Em boa parte dos casos de importunação sexual, a apuração depende quase só da palavra da vítima. Aqui, existe imagem, ângulo e repetição.
Isso coloca a Globo numa posição delicada. A emissora produz um programa de enorme audiência e, ao mesmo tempo, guarda um acervo que pode servir como prova de crime. A edição exibida ao público influencia percepções e debates, mas não controla o que a polícia vai analisar. O que vale no inquérito é o material bruto, não o recorte pensado para entretenimento.
O caso de Pedro também não aparece isolado. Desde a criação da lei de importunação sexual e de expulsões anteriores no programa, a casa passou a funcionar como uma vitrine involuntária da aplicação dessa legislação. Frases como “foi só brincadeira” ou “não teve intenção” não anulam a discussão sobre consentimento. A diferença agora é que milhões de pessoas assistem à cena antes mesmo da polícia se manifestar.

Do lado institucional, a Delegacia da Mulher assume um papel que vai além de investigar um ex participante de reality. Ao abrir um inquérito num caso tão exposto, deixa claro que a lei também vale em ambientes tratados como jogo ou espetáculo. Do ônibus lotado ao camarote de show, da balada ao confinamento televisivo, não existe território fora do alcance da lei.
O BBB, goste-se ou não, acaba virando uma aula desconfortável sobre consentimento. Desta vez, o público não acompanha só o paredão ou a repercussão nas redes. A audiência também observa como uma cena exibida na televisão pode seguir para a delegacia e ganhar consequências no mundo real.