A jornalista Marta Gómez Montero abandonou ao vivo o programa “Malas Lenguas Noche”, da TVE, na Espanha, após acusar o apresentador Jesús Cintora de humilhá-la diante dos colegas e do público. Visivelmente abalada, ela retirou o microfone, interrompeu a participação e deixou o estúdio no meio da transmissão.
Eu estava tentando entrar numa reunião por vídeo, ajeitando o enquadramento para esconder uma bandeja esquecida atrás do notebook, quando apareceu essa cena espanhola com clima de lavação de alma internacional. Parei antes de clicar em “entrar” e pensei: “Se a mulher tirou o microfone ao vivo, é porque o bastidor já estava pegando fogo fazia tempo”. Tem saída de estúdio que vale mais que uma coletiva inteira.

No ar, Marta reagiu ao que considerou mais uma humilhação. “Desculpa, você não vai me humilhar de novo. Sinto-me absolutamente humilhada”, declarou. Em seguida, explicou que vinha suportando a situação havia tempo: “Aguentei muito tempo, aguentei para pagar as contas, pelos meus filhos, mas não aguento mais”.
A frase mais forte veio pouco antes da saída. Ao citar o livro “O Coronel Não Tem Ninguém Para Escrever Para Ele”, de Gabriel García Márquez, Marta afirmou: “Existe um livro magnífico chamado O Coronel Não Tem Ninguém Para Escrever Para Ele, no qual a mulher pergunta ao protagonista o que eles vão comer, e ele responde merda. Bem, eu, Cintora, prefiro comer merda”.
Minha filha, isso não foi abandono de programa. Foi carta de demissão dramatizada com referência literária e microfone arrancado. A mulher saiu da bancada deixando a Espanha inteira com a colher parada no ar.
Horas depois, Jesús Cintora pediu desculpas nas redes sociais e disse que Marta continua sendo bem-vinda no programa. Segundo ele, a colega é uma boa jornalista e uma amiga, e o gesto que teria provocado a crise foi apenas um pedido para que ela aguardasse sua vez de falar durante o debate.
O apresentador explicou que, às vezes, faz sinais para que convidados não interrompam uns aos outros, não falem por baixo e respeitem a ordem da conversa. Mas, pelo visto, para Marta, aquilo não foi um gesto isolado. Foi a gota d’água de uma relação profissional que já vinha carregada.

A repercussão chegou até a direção da TVE. O presidente da emissora, José Pablo López Sánchez, prestou apoio público à jornalista e afirmou que a voz e o talento dela continuarão sendo valorizados na casa.
Eu fiquei pensando no tanto de gente que assiste a uma cena dessas e reconhece alguma coisa da própria vida: engole hoje, engole amanhã, engole para pagar conta, engole pelos filhos, até que uma hora o corpo levanta antes da diplomacia. Marta saiu do estúdio, mas deixou uma frase plantada no meio da mesa. E, convenhamos, ninguém esquece uma mulher que prefere “comer merda” a continuar sendo humilhada ao vivo.