Eu estava sentada num bar em Bari olhando o Adriático quando o celular não parou mais de vibrar. Oscar Schmidt tinha ido. E junto com a notícia, uma coisa me bateu forte: o Brasil inteiro passou o dia chamando ele de “Mão Santa”, exatamente o apelido que ele passou a vida inteira odiando. Tem ironia aí que dói, e também tem uma lição que o homem tentou dar pra todo mundo e ninguém quis ouvir direito.
O fato é simples e pesado ao mesmo tempo. Em um documentário recente, Oscar está com uma turma de garotos do Palmeiras, sorrisos abertos, a cena toda de ídolo generoso, e aí ele corta: “Não tem ‘Mão Santa’ aqui não… não tem milagre no basquete.” Não era carisma de entrevista, era convicção. Para ele, o apelido fazia parecer que a bola entrava por bênção divina, e isso, nas palavras dele, era quase uma ofensa às horas absurdas que ele passou sozinho na quadra enquanto todo mundo já tinha ido embora.



O que os técnicos contam ajuda a entender. Lula Ferreira lembrou que Oscar arremessava cerca de mil bolas por dia, chegava antes do treino, saía depois, e não largava a bola até acertar 20 chutes de três seguidos. Não vinte no total. Vinte em sequência. Outro treinador resumiu numa frase que ficou: “Oscar não era o mais talentoso, mas era o mais obstinado.” Esse era o legado que ele queria deixar, o do operário, não o do santo.
A questão que fica, e que ele nunca conseguiu resolver em vida, é que o Brasil prefere o mito ao método. “Mão Santa” é mais bonito, mais vendável, mais fácil de gritar na arquibancada do que “mão que arremessou um milhão de vezes até acertar”. O apelido colou porque as pessoas precisam acreditar que existe talento puro, dádiva de Deus, algo que não dá pra treinar. Oscar passava a vida inteira desmentindo isso, e o Brasil passava a vida inteira ignorando.
Então aqui vai, Kátia falando do fundo do Adriático com o coração pesado: da próxima vez que alguém chamar uma criança de “talento natural”, lembra do Oscar Schmidt arremessando sozinho numa quadra vazia até acertar o vigésimo chute em sequência. A mão dele era treinada. Ele pediu isso. O mínimo que a gente pode fazer agora é ouvir.