Manas, a morte de Titina Medeiros não doeu só porque foi cedo demais. Doeu porque o Brasil inteiro correu para chorar uma atriz que ele próprio demorou décadas para enxergar por inteiro. Aos 48 anos, vítima de um câncer de pâncreas, Titina virou manchete nacional como “atriz de Cheias de Charme”. Para quem acompanhava o teatro do Rio Grande do Norte, isso soa quase ofensivo. É pouco. É apertado. É injusto.
Antes de virar rosto popular da televisão, Titina já era coluna vertebral da cena potiguar. Palco montado na raça, processo coletivo, figurino dividido, estrada percorrida em van, festival atrás de festival. Grupos como os Clowns de Shakespeare e a Casa da Ribeira formaram uma artista com densidade, ritmo e presença que não se improvisam em estúdio. O Brasil viu só a superfície. O fundamento sempre esteve lá.
O noticiário repete o script conhecido. Cita a Socorro de Cheias de Charme, lembra Onde Nascem os Fortes, Mar do Sertão, No Rancho Fundo. Tudo correto. Tudo verdadeiro. Só que isso conta metade da história. A outra metade ficou anos confinada ao rótulo confortável de “cena alternativa”, aquela palavra que o Sudeste usa para não ter que lidar com a força criativa que nasce fora do eixo.

Titina veio de Currais Novos, construiu sua trajetória em Natal e nunca precisou pedir licença para existir artisticamente. Ela formou gerações, abriu caminho, sustentou pesquisa de linguagem e fez do teatro potiguar uma referência nacional, mesmo sem holofote constante. Quando a televisão resolveu olhar, ela já estava pronta havia muito tempo.
Não é coincidência que a TV a tenha abraçado justamente em personagens marcados por sotaque, música e cotidiano nordestino. A Socorro que o Brasil amou carregava humor, timing e verdade que vinham de décadas de palco. Ainda assim, muita gente insistiu em tratá-la como alívio cômico, como descoberta tardia, como novidade. Titina nunca foi novidade. Ela era estrutura.
Essa comoção toda que explode agora escancara um padrão velho. Artistas que nascem fora do eixo Rio São Paulo só ganham biografia completa depois da morte. Enquanto vivem, cabem em nota curta. Depois, viram “gigantes”. O atraso não é dela. É nosso.

Ao reduzir Titina à personagem de novela, o país repete o apagamento que atravessou a carreira inteira dela. A ideia torta de que, para ser reconhecida nacionalmente, uma artista precisa primeiro passar pelo carimbo do Sudeste. Quantas Titinas seguem hoje sustentando cenas locais, formando público e linguagem, enquanto o Brasil finge não ver.
Se existe algum gesto digno agora, ele passa por contar essa história direito. Titina inteira. Atriz de grupo, pilar do teatro potiguar, rosto da virada nordestina na televisão, mulher que nunca precisou diminuir a própria grandeza para caber em lugar nenhum. O luto também serve para isso. Para olhar de frente e perguntar por que o reconhecimento sempre chega atrasado.