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Kátia Flávia
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Por que Manoel Carlos fez o Brasil sofrer no Leblon

Autor icônico morreu ontem aos 92 anos no Rio de Janeiro, cercado pela família, deixando um legado de emoção e culpa em horário nobre. Entre o mar de Ipanema e apartamentos de frente para o mar, ele transformou dramas íntimos em espetáculo nacional que fez o país chorar.

Kátia Flávia

11/01/2026 10h30

Autor icônico morreu ontem aos 92 anos no Rio de Janeiro, cercado pela família, deixando um legado de emoção e culpa em horário nobre. Entre o mar de Ipanema e apartamentos de frente para o mar, ele transformou dramas íntimos em espetáculo nacional que fez o país chorar.

Eu vou dizer sem rodeio e com o coração apertado. Manoel Carlos não inventou o drama familiar na televisão, mas foi ele quem deu endereço fixo para a nossa dor. O CEP era nobre, o cenário era lindo, o mar estava sempre ali, azul, indiferente. Enquanto o Brasil brigava com inflação, desemprego e cansaço, ele nos convidava a entrar em salas amplas, cheias de silêncio, culpa e segredos mal resolvidos.

E agora, nessa noite de sábado, 10 de janeiro de 2026, ele morreu aos 92 anos no Rio de Janeiro, cercado pela família, depois de uma longa luta contra as complicações da doença de Parkinson. Seu velório será restrito a familiares e amigos íntimos, em respeito ao pedido da família. 

Foi ali que o Brasil aprendeu a sofrer em cenário de cartão-postal, projetando suas dores em personagens que tinham tudo, menos paz.

Nas novelas de Manoel Carlos, ninguém sofria no escuro. A dor vinha com trilha bonita, pôr do sol no Arpoador, caminhada na orla e café passado na hora certa. Câncer, alcoolismo, abandono, violência doméstica, culpa materna, tudo acontecia em apartamentos de frente para o mar, com janelas abertas e vista de cartão-postal.

E era exatamente aí que doía mais. Porque o contraste machucava. A vida parecia perfeita por fora, mas estava em frangalhos por dentro. Ele nos lembrava, capítulo após capítulo, que dinheiro não compra paz, nem afasta tragédia. Que ninguém está protegido, nem quem mora no metro quadrado mais caro do país.

O Leblon deixou de ser só bairro e virou personagem. Um personagem bonito, silencioso e cruel. Ali, o Brasil de novela era majoritariamente branco, urbano, bem vestido e emocionalmente quebrado. As grandes tragédias não eram tiroteio nem fome, eram heranças mal resolvidas, traições longas, casamentos sufocados e mães que amavam demais.

Era uma fantasia com duas faces. Para uns, espelho. Para outros, sonho distante. Para todos, um produto muito bem embalado. O sofrimento virou algo palatável, quase confortável de assistir. Chorava-se, mas com a sensação estranha de estar olhando uma vitrine.

Manoel Carlos entendia como poucos a culpa brasileira. A culpa de não ter sido melhor pai, melhor mãe, melhor marido, melhor filha. Seus personagens erravam pouco em ações, mas erravam muito em silêncio. Guardavam segredos por décadas e pagavam juros emocionais altíssimos.

As famílias falhavam o tempo todo. E falhavam bonito. Falhavam com diálogos longos, pausas desconfortáveis e choros que pareciam nossos. Mesmo quando o cenário era inalcançável, a emoção era íntima. Ninguém tinha aquele apartamento, mas todo mundo reconhecia aquele casamento falido, aquela mãe sufocante, aquele amor que chegou tarde demais.

Visto hoje, em 2026, aquele Leblon envelheceu como retrato social. Falta diversidade, sobra recorte. Isso é fato. Mas emocionalmente, aquilo ainda funciona como um soco lento no estômago. Porque o Brasil pode ter mudado, mas a culpa, o medo de perder quem se ama e a dificuldade de dizer o que sente continuam exatamente iguais.

As reprises viram memes, as Helenas viraram debate, mas o efeito permanece. O Brasil ainda para para sofrer com aquelas histórias. Ainda se reconhece. Ainda chora. Mesmo questionando quem tinha, de fato, o direito de ocupar aquele espaço de dor tão bonito.

No fim, Manoel Carlos fez algo raro. Ele nos ensinou que sofrer também é uma forma de se reconhecer humano. Mesmo que seja de frente para o mar. Mesmo que doa mais por isso.

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