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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Por que ‘Dona Beja’ é a novela que melhor entende o imaginário mineiro

Em Araxá de 1819, entre igreja, fofoca e pedras de diamante, a história real de uma mulher sequestrada e transformada em “escândalo” vira novela de época quente, feminista e mineiríssima que a HBO Max exporta para dezenas de países.

Kátia Flávia

02/02/2026 15h30

Em Araxá de 1819, entre igreja, fofoca e pedras de diamante, a história real de uma mulher sequestrada e transformada em “escândalo” vira novela de época quente, feminista e mineiríssima que a HBO Max exporta para dezenas de países.

Eu assisti Dona Beja com a alma de quem já viu novela demais, já fofocou em salão de beleza de Araxá e já leu mapa astral de personagem , e afirmo com o batom borrado, essa novela entende Minas como poucas ousaram. Araxá de 1819 aparece como aquela cidade onde todo mundo reza junto, julga junto e condena junto, sempre com a maior cara de quem não tem nada a ver com isso. Igreja cheia, boca fechada na frente, língua solta no portão, Brasil, eu conheço esse roteiro desde criancinha.

Beja volta sequestrada, violentada e destruída, e o que a cidade faz? Vira o rosto para o agressor e aponta o dedo para ela com a mesma animação de quem comenta traição de celebridade em grupo de WhatsApp. O escândalo nunca é o poder abusando, o escândalo é a mulher sobrevivendo fora da caixinha permitida. Isso é Minas, isso é Brasil, isso é planeta Terra com filtro moral seletivo.

A novela acerta quando transforma o bordel em centro nervoso da cidade, porque ali se decide tudo, do destino político ao babado mais sórdido. Os mesmos homens que cantam hino na missa entram no sobrado de Beja com sede de poder, desejo e silêncio comprado. As mulheres olham torto, julgam, invejam, temem e se reconhecem. É um retrato tão certeiro que dá vontade de mandar a cidade inteira para o divã com retorno só depois de muita terapia.

Grazi Massafera entrega uma Beja que não pede desculpa por existir e muito menos por usar a sensualidade como ferramenta de sobrevivência. Essa Beja olha o sistema nos olhos, passa gloss e joga o jogo com as cartas que a vida permitiu. Eu vibro porque a HBO Max não exporta só uma novela de época quente, ela manda para mais de cem países um manual brasileiro de hipocrisia social embalado com figurino caro e close certo.

E eu digo mais, Dona Beja chega ao streaming com cara de fofoca histórica que vira debate global, e depois ainda desembarca na Band para provar que o sofá brasileiro também aguenta história indigesta. Minas sai do cochicho de sacristia direto para o catálogo internacional, e eu fico aqui imaginando Beja assistindo tudo isso, sentada no melhor lugar da sala, cruzando as pernas, rindo da cidade inteira que tentou enterrá la viva e acabou virando vitrine mundial.

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