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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Por que Daniel Erthal ganha mais dinheiro na rua do que no próprio bar

Ex-galã da Globo investe mais de R$ 100 mil em bar no Rio, mas descobre que o lucro real está no isopor, não no balcão.

Kátia Flávia

04/01/2026 9h39

Ex-galã da Globo investe mais de R$ 100 mil em bar no Rio, mas descobre que o lucro real está no isopor, não no balcão.

Amores, romantizar empreendedorismo no Brasil é esporte de risco. E quem resolveu contar isso sem filtro foi Daniel Erthal, ator conhecido por trabalhos na Globo e por uma passagem marcante por Malhação. Na tentativa de aposentar de vez o isopor de cerveja, ele investiu as economias em um bar no Rio de Janeiro. O sonho era simples. Ter um negócio próprio, porta aberta, identidade, estabilidade. A realidade veio com boleto.

Depois de aplicar mais de R$ 100 mil na reforma e montagem do espaço, Erthal se viu diante de uma matemática cruel. Mesmo com o bar funcionando, ele segue ganhando mais dinheiro como vendedor ambulante nas ruas e praias da cidade do que atrás do próprio balcão. E não é força de expressão. É conta no papel.

Desde o início, Daniel tratou o bar como um filho. Desenhou ambiente, escolheu detalhes, insistiu em manter o espaço mesmo quando o movimento começou a minguar. O apego, ele admite, atrapalhou. Especialmente no pior período possível. O inverno carioca, quando a praia esvazia, o fluxo some e o caixa sente.

O erro principal, segundo ele, foi básico e fatal. O ponto. “Não observei a quantidade de pessoas que passa na rua”, confessou. Em tradução livre. Bar sem fluxo não se paga. Enquanto isso, na calçada, o dinheiro gira. Na rua, ele ganha mais. Simples assim.

O endereço virou vilão. Aluguel alto, conta de luz, despesas fixas, impostos, equipe, taxas. Tudo isso exige movimento constante para fechar a conta. Algo que nunca se consolidou. No fim do mês, o faturamento do bar mal cobre os custos. Já a venda de cerveja na rua, especialmente em datas de grande fluxo, gera lucro rápido, direto e palpável.

Em eventos como o Réveillon de Copacabana, o carrinho de bebidas disputa espaço com centenas de ambulantes, mas ainda assim fatura em poucos dias o que o bar não consegue em um mês inteiro. Na orla lotada, o consumidor compra por impulso, sem atravessar porta, sem sentar, sem pensar muito. No bar, cada noite vazia pesa como sentença.

A comparação escancara um dilema que muitos pequenos empreendedores conhecem bem. CNPJ não garante estabilidade. A informalidade, apesar dos riscos, muitas vezes paga melhor. Na rua, Daniel depende de clima, fiscalização e segurança. Já teve carrinho furtado, inclusive. Mas também tem liberdade. Ajusta estoque, horário e estratégia em tempo real.

No bar, está preso a contratos, a um ponto fixo e a despesas que vencem todo mês, faça sol ou tempestade.

Hoje, Daniel fala em reavaliar o negócio até abril. Não descarta mudar de endereço, estuda bairros como Botafogo e Copacabana, onde o fluxo é naturalmente maior. Mas deixou o romantismo de lado. Só insiste se fizer sentido no papel. Longo prazo virou luxo. A vida, segundo ele, é ajuste constante. Igual ao ambulante que monta e desmonta o ponto todo dia.

Há também o incômodo simbólico. Daniel diz sentir que passou a ser visto apenas como vendedor de cerveja, não mais como ator. O contraste entre o rótulo de ex-galã da Globo e o trabalho na rua escancara um preconceito antigo com ocupações informais. Como se vender cerveja fosse fracasso, quando na prática sustenta milhares de famílias no Rio.

Ao se expor, ele humaniza esse universo. Mostra que o isopor não é queda. É estratégia de sobrevivência em um país hostil aos pequenos negócios.

O desejo de voltar à televisão segue vivo. Daniel diz que adoraria fazer testes para novelas, séries, qualquer projeto que o reconecte à dramaturgia. Enquanto isso, usa a própria história, as redes sociais, o bar e a rua para se manter visível e pagar as contas.

Entre o glamour distante dos estúdios e o suor diário da calçada, Daniel Erthal encarna um novo tipo de ex-galã. Menos pedestal, mais realidade. E uma lição clara. No Brasil, nem sempre o balcão é mais seguro que a rua.

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