Xuxa Meneghel revelou que já pensou em deixar o Brasil por causa do avanço de discursos de intolerância e preconceito. Em entrevista ao programa VEJA em Foco, a apresentadora disse que chegou a cogitar morar fora, mas mudou de ideia ao concluir que não deveria ser ela a fugir do país.
Eu ainda estava no brunch em Ibiza, empurrando o prato vazio para o lado e pedindo uma água com limão siciliano porque o calor já estava fazendo reunião com meu delineador, quando Xuxa apareceu com um desabafo daqueles que não pedem licença. E quando a Rainha fala em nave, preconceito e descarga na mesma entrevista, a gente larga o guardanapo e presta atenção.

“Teve alguns momentos da minha vida que eu pensei nisso daí. Já pensei em morar fora”, contou Xuxa, ao falar sobre a vontade de se afastar do Brasil em determinados períodos.
A apresentadora explicou que o incômodo vem do crescimento de falas preconceituosas, especialmente contra mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. “Porque eu vejo muita gente saindo dos esgotos, saindo dos buracos, saindo dos armários sujos, imundos, levantando umas bandeiras ridículas dizendo que mulher não pode falar, não pode votar, mulher não pode ser feliz, que LGBTQ+ é coisa do capeta, que a Xuxa tem pacto”, disparou.
Eu coloquei os óculos escuros no rosto e pensei: pronto, ela pegou o preconceito pelo colarinho. Xuxa tem esse talento raro de transformar indignação em frase com efeito, nave espacial e tapa moral no mesmo pacote. A mulher não deu entrevista, ela abriu uma comporta.
Segundo Xuxa, há dias em que a vontade é simplesmente desaparecer. “Tem uns dias que eu falo: ‘Nave, desce aí e me leva embora mesmo, porque eu acho que eu não sou desse planeta não’”, desabafou.
Ela continuou: “Porque essas palavras, sei lá, não deviam nunca existir e essas pessoas existem, né? Essas palavras existem, então me dá uma vontade às vezes de sumir”.
Mas a Rainha disse que repensou a vontade de ir embora. Para Xuxa, quem precisa se esconder não é quem defende liberdade, respeito e diversidade, mas quem espalha ódio. “Mas depois eu fico pensando: ‘Sabe de uma coisa? São essas pessoas que têm que sumir’”, afirmou.

A frase mais forte veio em seguida. “E não é nem pra minha nave, porque a minha nave leva pra cima, devia ir pra baixo mesmo, sabe? Apertar uma descarga e ir embora. São pessoas podres e nojentas. Não sou eu que tenho que fugir, me esconder. São elas que deviam ter vergonha dos pensamentos delas”, concluiu.
Do lado de cá, pedi a conta e fiquei com vontade de levantar a taça de água mesmo, porque Xuxa fez aquilo que muita gente ainda tenta evitar: chamou preconceito pelo nome. E fez melhor. Disse que não vai entregar o Brasil para quem acha bonito sair do esgoto com bandeira de ódio na mão. A nave pode até estar pronta, mas, pelo visto, quem vai embarcar primeiro é a vergonha alheia.