Eu estava pronta para mais uma noite comum de novela, uma maldade aqui, um segredo ali, uma cara fechada bem dada na sala, quando Três Graças resolveu me servir sofrimento em taça grande. Porque não basta Gerluce ser presa. Ela vai ser algemada por Paulinho, o homem que ama, justamente quando tenta contar a ele que foi a mente por trás do roubo da estátua As Três Graças. Aí, meu amor, já não estamos mais falando de capítulo. Estamos falando de desgraça premium com trilha sonora emocional e coração pendurado na viatura.

O fato é de novela daquelas que sabem judiar com método. Gerluce encontra Paulinho do lado de fora de casa, nervosa, pronta para abrir o jogo, mas o policial já sabe de tudo e finge até onde consegue. Antes que ela organize a própria confissão, ele revela que descobriu seu envolvimento no roubo da escultura na casa de Arminda e avisa que vai prendê-la por assalto à mão armada, formação de quadrilha e sequestro. Juquinha ainda surge para apertar o clima, e a cuidadora entende na hora que a porta de saída fechou com gosto de ferro e lágrima.
E é aqui que a novela acerta em cheio no meu ponto fraco de Cátia noveleira, o amor esmagado pelo procedimento. Paulinho se mostra abalado, mas segue adiante, porque o uniforme, nessa hora, pesa mais do que o beijo, o pedido de casamento e todas as promessas feitas olhando no olho. Gerluce admite que sempre temeu esse momento, só que nunca imaginou que doeria tanto ser presa justamente pelo homem que ama. É muito bonito ver a novela entender que a humilhação sentimental, quando bem escrita, vale mais do que dez gritos e três tapas.
Na delegacia, a cena sobe ainda mais de temperatura emocional. Os dois se encaram através das grades da cela, e Gerluce finalmente despeja o que a moveu, a mãe estava morrendo por causa dos remédios falsificados, denunciar o esquema a colocou em risco, e o medo de perder Paulinho para a corrupção ao redor fez com que ela agisse por conta própria. Ela também revela que temia que ele acabasse morto ao investigar Ferette, especialmente depois de descobrir que o tiro da noite do pedido de casamento era destinado a ele. A novela, muito sabida, pega o clichê da mulher acuada e transforma numa heroína torta, errada, desesperada e completamente apaixonada.
Paulinho, claro, vira o retrato do homem partido ao meio. Ele tenta manter a lei de pé, mas o relato de Gerluce o desmonta, e o personagem admite que quase quebrou o próprio juramento para salvá-la da prisão. Rômulo Estrela ainda comenta esse dilema como um momento em que o custo do certo vira custo afetivo, e eu acho isso um luxo, porque novela boa é justamente essa que faz o personagem pagar emocionalmente pelo que seria, em tese, a escolha correta. Justiça sem dor nenhuma não dá ibope, convenhamos.