Ai, amores, vou abrir meu coração sem pudor nenhum. No meu carro só toca Paula Mattos. Juro. É dar a partida que a sofrência começa, e eu vou cantando como se estivesse vivendo três términos ao mesmo tempo. Aqui no Cosme Velho, eu e minhas amigas já decretamos. Festa sem Paula Mattos não é festa, é reunião.
A gente coloca as músicas, aumenta o volume, dramatiza, sofre sentada no sofá com taça na mão e ainda aplaude no refrão. Ela é o máximo, ela entrega emoção sem pedir licença e eu fico completamente obcecada tentando entender de onde sai tanta sofrência boa.
Inclusive, Paula, fica o convite público. Vem jantar aqui em casa. Quero vinho, conversa longa e um interrogatório carinhoso. Preciso entender melhor essa mente que escreve dor com tanto charme.
Paula Mattos não apareceu do nada no feminejo. Quando o Brasil começou a cantar sofrência feminina em coro, ela já estava lá atrás, escrevendo frases que hoje parecem óbvias, mas que ninguém tinha coragem de bancar antes.
Foi com a caneta que Paula entrou no jogo. “Doidaça”, gravada por Gusttavo Lima, virou hit nacional. “Separa Namora”, na voz de Henrique & Juliano, dominou rádio e festa. “Cara de Rica” ganhou o país ao entrar na trilha da novela Império, da Globo. Tudo isso antes de muita gente saber quem ela era.
Enquanto o feminejo crescia com Marília Mendonça, Maiara & Maraisa e Naiara Azevedo, Paula estava ali, ajudando a escrever esse movimento por dentro. “Rosa Amarela” entrou nas listas das músicas femininas mais tocadas do período e colocou o nome dela no mesmo bloco dos grandes sucessos da década.
A virada veio quando ela decidiu sair do bastidor e assumir o microfone. O projeto Paula Mattos Acústico apresentou ao público a dona daquelas frases que todo mundo já sabia cantar. Vieram regravações, parcerias e um lugar definitivo na linha de frente. “Coisa de Ex” rodou o país, “Que Sorte a Nossa” virou presença obrigatória em playlists, e músicas como “Eu Já Te Amava” e “Nosso Cupido Foi Deus” consolidaram o repertório.
Na própria discografia, Paula passou a colecionar hits com naturalidade. “Amiga”, ao lado de Marília Mendonça, virou hino. “Não Largo, Não Troco, Não Empresto” e “Rosa Amarela” seguiram firmes nas rádios. Mais recentemente, ela manteve a engrenagem girando com parcerias como “Amor é Diferente”, com Zé Felipe, e “Boa Sorte”, com Dilsinho, além de revisitar sucessos que nasceram para outros intérpretes.
Paula Mattos ocupa um lugar curioso no feminejo. Ela canta o ponto de vista feminino, mas também escreveu esse ponto de vista para muita gente. Antes do movimento virar rótulo, já tinha alguém organizando as ideias, os refrães e as viradas emocionais que hoje todo fã reconhece de longe.