Eu estava aqui no Cosme Velho quando a Mônica me mandou os detalhes que o delegado Nico abriu com exclusividade, e precisei sentar. A investigação começou em 2019 e só decolou quando peritos encontraram um documento parcialmente destruído dentro de um esgoto. A equipe não jogou fora: ressuscitou o papel, secou, refez, e o que saiu dali era o elo que faltava para chegar à transportadora de cargas em Presidente Venceslau, no interior paulista. Essa empresa não era apenas um canal pelo qual o dinheiro do PCC chegava a Deolane. Ela era a dona.
Dali em diante, a investigação foi abrindo uma teia de empresas-fantasma com endereços fictícios, várias delas registradas num mesmo ponto, clássico de esquema de ocultação patrimonial. Segundo o delegado Nico, os depósitos eram fracionados abaixo de R$ 10 mil para escapar do radar bancário, e a operação chegou a bloquear valores expressivos em bens, carros de luxo e imóveis.

A Operação Vérnix, terceira etapa de um trabalho que já soma mais de 250 ações conjuntas entre a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo, cumpriu seis mandados de prisão preventiva, incluindo o irmão e sobrinhos de Marcola, além de Everton de Souza, o “Player”, operador financeiro do esquema. Dois alvos seguem em difusão vermelha da Interpol.
O detalhe que a imprensa não explorou direito foi a coordenação cirúrgica em torno de Roma. Deolane estava na Itália quando a operação foi planejada. A deflagração era às 6h no Brasil, 11h no horário italiano, e a polícia manteve sigilo absoluto até o momento exato para garantir a prisão simultânea de todos os alvos em solo nacional. Ela voltou na véspera sem saber do que vinha pela manhã.

O delegado Nico Gonçalves foi categórico com Mônica Apor: as provas são robustas demais para que um habeas corpus passe fácil no curto prazo. Sobre o clima geral, soltou a frase que resume a filosofia do trabalho: “O crime organizado aqui não tem líder, não tem nada, estão fora do país, nós vamos buscar.”
A irmã Daniele Bezerra correu para as redes com nota falando em perseguição e “manchetes como condenação”, e o X dividiu opiniões entre quem grita armação e quem lembra que essa já é a segunda prisão em menos de um ano, a primeira pela Operação Integration, em Pernambuco.
A coluna anota que documento pescado de esgoto, sete anos de investigação e promotor que vive sob ameaça de morte do PCC não costumam ser ingredientes de perseguição fácil de explicar.