Eu confesso, amigas, que abri o Instagram achando que ia ver publi de livro, frase edificante, aquele Padre Fábio versão paz interior com filtro bege. Pois recebi foi um sermão daqueles que desmontam mesa de bar e comentário de rede social junto.
O que aconteceu em Itumbiara é de embrulhar o estômago. Um pai mata os dois filhos depois de descobrir a traição da esposa, se suicida, uma criança morre na hora, a outra luta na UTI e não resiste. Tragédia completa, sem manual, sem explicação simples, sem vilão de novela das nove.
Mas aí entra em cena o elenco mais previsível da internet, o júri popular do Wi-Fi ruim. Em vez de silêncio, acolhimento ou respeito, resolveram caçar culpados. E adivinha para quem sobrou. Para a mãe, claro. Sempre ela. A mulher vira personagem central do horror, como se uma traição explicasse um assassinato de crianças. Freud cai duro do sofá.
É nesse caldo de crueldade que surge o texto de Padre Fábio de Melo, direto, indigesto e necessário. Ele lembra o óbvio que muita gente parece ter desaprendido. Essa mulher já perdeu os dois filhos. Já carrega a culpa que qualquer ser humano carrega diante de uma tragédia. E ainda precisa lidar com o apedrejamento virtual de quem se diz defensor da família.

O padre vai além e aí mora o desconforto. Ele pergunta que Deus é esse que autoriza desumanizar, humilhar, esmagar alguém que já está no chão. Que fé é essa que não admite fraqueza, erro, contradição. Segundo ele, esse Deus punitivo, vingativo, justiceiro de comentários, também não é o dele. E solta a frase que fez metade da internet engasgar com o café. No Deus dessas pessoas, eu também não acredito.
Pronto. Bastou isso para o circo pegar fogo. Porque nada irrita mais do que alguém lembrando que religião sem compaixão vira espetáculo de crueldade com verniz moral.
Aqui na minha coluna, onde tudo vira novela e todo mundo acha que é protagonista, esse episódio entra como o plot twist mais indigesto da semana. A tragédia real vira pano de fundo para uma guerra de narrativas onde muita gente só quer apontar o dedo e sair limpa.
Padre Fábio, com jeito de quem já viu esse filme ruim muitas vezes, fez o que pouca gente teve coragem de fazer. Mandou um basta elegante, firme e dolorosamente humano. Enquanto isso, o tribunal da internet segue gritando, julgando e esquecendo que, nessa história, não existe final feliz, nem personagem que mereça aplauso.
E se alguém ainda não entendeu, fica a legenda que não cabe em stories. Fé que humilha não salva ninguém. Compaixão nunca matou criança alguma.