Eu estava na academia, no meio do aeróbico, tentando cuidar da minha vida e das minhas calorias, quando abri a coluna do querido Lauro Jardim e quase desci da esteira pelo lado errado. Lauro, meu amigo, me aparece com essa logo de manhã: Pablo Marçal virou alvo de uma representação no Ministério Público Eleitoral depois de declarações ofensivas contra religiões de matriz africana. Aí meu treino virou indignação.
E vamos ao que foi dito, porque aqui a realidade já faz o serviço do deboche sozinha. Em entrevista ao canal de Luiz Bacci, outro querido meu, Marçal declarou que “todo macumbeiro é um derrotado” e associou os praticantes a gente “invejosa” e que “não prospera”. Ainda comparou práticas religiosas africanas com as brasileiras e disparou: “Se macumba funcionasse, a Bahia seria Dubai”.

Eu parei o aparelho. Porque, meu amor, uma coisa é você ter sua fé. Outra é transformar a sua fé numa régua para humilhar a fé dos outros. E outra, muito mais grave, é alguém que pretende disputar a Presidência da República achar aceitável colocar milhões de brasileiros dentro de uma caricatura preconceituosa.
Segundo Lauro Jardim, Ivanir dos Santos, candidato a deputado federal pelo PSB no Rio, apresentou uma representação ao Ministério Público Eleitoral pedindo a investigação das declarações. A peça aponta possível discriminação, racismo religioso, discurso de ódio, propaganda eleitoral vedada e pede ainda que sejam analisadas eventuais práticas de abuso de poder ou uso indevido dos meios de comunicação.
E tem um detalhe que deixa tudo ainda maior: o vídeo ultrapassou 350 mil visualizações no YouTube, de acordo com a representação. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas, o CEAP, também procurou a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio para pedir a apuração de possíveis delitos.
Agora voltem comigo para a academia porque eu preciso terminar esse aeróbico antes que minha pressão suba por motivos que não têm absolutamente nada a ver com exercício. Umbanda, Candomblé e as demais tradições de matriz africana não precisam da aprovação de Pablo Marçal para existir. São religiões, têm história, comunidades, sacerdotes, ritos e milhões de brasileiros que merecem o mesmo respeito dispensado a qualquer outra fé.

E candidato à Presidência não precisa acreditar em todas elas. Precisa compreender algo infinitamente mais básico: se pretende governar um país plural, não pode escolher quais brasileiros merecem ter sua fé respeitada.
Eu voltei para a esteira ainda passada. Porque intolerância religiosa já é feia em qualquer lugar. Em discurso de quem pretende chegar à Presidência da República, fica assustadora. E o Ministério Público agora vai analisar até onde foi opinião e onde pode ter começado uma violação da lei.