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Kátia Flávia
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Oruam: do estrelato ao foragido em 1 ano

Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, o Oruam, saiu do auge comercial e virou foragido após o avanço de investigações e decisões judiciais ligadas a denúncias e medidas cautelares. O caso ganhou repercussão nacional e impulsionou projetos apelidados de “Lei Anti-Oruam”, que miram shows financiados com dinheiro público.

Kátia Flávia

05/03/2026 15h00

O rapper está foragido da Justiça há um mês (Foto: Reprodução/Internet)

Meu povo, eu estava mexendo no feed e achando que ia ver só mais um clipe com carro caro e corrente brilhando, quando eu trombo com esse roteiro que parece que alguém escreveu para deixar a gente sem estrutura. Oruam, o Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, foi do estrelato de um dos funkeiros mais requisitados do país para a condição de foragido em cerca de um ano. Eu li e pensei, calma, isso é vida real ou é temporada nova de série que começa com glamour e termina com sirene.

O ponto é que a imagem do artista sempre veio com uma sombra colada. Além do personagem de música, ostentação e “bonde”, existe a história do pai dele, citado em investigações como liderança ligada ao Comando Vermelho, e isso passou a pesar cada vez mais no olhar de polícia e Ministério Público. Na prática, meu amor, o que antes era pano de fundo virou parte do foco, e o Oruam passou a ser visto também como símbolo dessa fronteira confusa entre cultura e crime organizado.

A fronteira explode em julho de 2025, quando uma operação da Polícia Civil no imóvel dele, no Joá, no Rio, vira caso grande. A versão dos investigadores aponta que ele teria arremessado pedras grandes contra delegados e agentes que estavam cumprindo mandado, num clima de tensão pesada. A partir daí, o Ministério Público denuncia o cantor por tentativa de homicídio qualificado contra policiais civis, tratando o episódio como ataque direto ao Estado. Eu sei, meu bem, é o tipo de acusação que muda tudo, muda o tom do noticiário e muda o jeito que o sistema olha para o sujeito.

Com a denúncia aceita, ele vira réu no Rio de Janeiro. E o mapa se amplia com outra frente em São Paulo, por um caso de disparo de arma de fogo em festa, o que empilha processos e aumenta a pressão. A história deixa de ser só página policial e vira debate público, com gente discutindo segurança, cultura, política e o velho vício brasileiro de transformar um caso em bandeira.

O Judiciário decreta prisão preventiva, depois vêm decisões que substituem a cadeia por medidas cautelares e monitoramento eletrônico. E aí entra a parte que eu chamo de “vida vigiada”, porque tornozeleira não é acessório, é coleira de regra. Ele fica com limite de circulação, obrigação rígida, e o que era para ser controle vira mais um capítulo de atrito, porque relatórios oficiais passam a apontar descumprimentos em série. Falam em 66 violações, com bateria descarregada, permanência em áreas proibidas, ausência de sinal. É muito aviso até o sistema dizer, chega, acabou a confiança.

O resultado vem como era previsível. A prisão é restabelecida, nova captura é autorizada, e desde o início de fevereiro de 2026 ele passa a ser considerado foragido, depois que o equipamento é desligado e ele deixa de ser localizado nos endereços informados. Meu povo, essa parte é a virada de chave. De artista em alta para procurado, de backstage para mandado, de clipe para boletim, numa velocidade que deixa qualquer fã zonzo e qualquer crítico com munição.

E aí, como o Brasil adora colocar nome em tudo, surge o rótulo “Lei Anti-Oruam”. Projetos municipais e estaduais tentam proibir dinheiro público em shows de artistas acusados de apologia ao crime ou com supostos vínculos com facções. A justificativa vem embaladinha, proteção de crianças e adolescentes, mas a treta real é política. Tem gente gritando “endurece”, tem gente gritando “censura disfarçada”, e no meio disso juristas, artistas e movimentos negros denunciam criminalização seletiva da cultura de favela. Eu olho e penso, pronto, virou guerra de narrativa em cima de um processo que ainda está em curso.

Oruam vira caso exemplar, vitrine perfeita. Vira assunto de aula, de cursinho, de discussão sobre prisão preventiva, tornozeleira, dolo em tentativa de homicídio e limites de cautelar. Enquanto isso, político adora posar de durão batizando projeto com nome de artista, porque dá manchete, dá corte e dá palanque, sem precisar encarar política pública de verdade, que dá trabalho e não rende aplauso fácil.

E aqui eu preciso falar com você, meu amor, olhando no seu olho de leitor. Tem uma contradição enorme nessa história. O país que lota baile, consome letra sobre arma e dinheiro, enriquece selo e plataforma com esse som, é o mesmo que corre para usar o colapso do ídolo como recado punitivo. E no meio disso tudo, o artista some, os fãs se dividem, e a mensagem vira mais importante que a pessoa. Eu fecho essa página com uma sensação azeda, porque esse roteiro sempre tem plateia, sempre tem discurso, e quase nunca tem cuidado real com o que está por trás do espetáculo.

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