Eu já aviso logo, Trancoso não vai sobreviver ileso a março. Já encomendei meus vestidos , não perco por nada. A Orquestra Ouro Preto chega ao Festival Música em Trancoso decidida a bagunçar o emocional de quem ainda achava que concerto sinfônico era coisa comportada. Aqui tem palco, tem diva, tem baianidade, tem Beatles e tem drama, do jeito que eu gosto.
Serão três noites no Teatro L’Occitane, cada uma com um roteiro próprio e um clima diferente, quase como aqueles capítulos especiais de novela que ninguém perde. A abertura já começa grandiosa, com o tributo aos The Beatles, um dos projetos mais comentados da trajetória da orquestra. Cordas clássicas abraçam banda de rock, o público suspira, os puristas arregalam o olho e todo mundo acaba aplaudindo.

No dia seguinte, entra em cena Vanessa da Mata, com vestido de diva madura, voz afiada e aquele repertório que mistura sucesso radiofônico com poesia de quem já viveu bastante. A Orquestra acompanha, amplia, dramatiza e entrega uma noite pensada para lágrima contida e celular levantado discretamente.
O encerramento é pura combustão emocional. Carlinhos Brown aparece com o projeto Afrossinfonicidade e transforma o teatro em uma espécie de terreiro elegante. Percussão baiana conversa com violinos mineiros, o público entra no balanço e a fronteira entre concerto e festa simplesmente some.

Quem segura essa mistura toda é o maestro Rodrigo Toffolo, que fala pouco e rege muito. Dá para sentir que ali não tem improviso inocente. Cada encontro foi pensado para impressionar sem parecer forçado, agradar sem virar óbvio e provocar aquele comentário clássico na saída do teatro, “isso eu nunca tinha visto assim”.
O Festival Música em Trancoso já tem fama de unir universos, mas desta vez resolveu elevar o jogo. A Orquestra Ouro Preto entra como protagonista e puxa para si a narrativa do evento. Quem for, sai contando história. Quem não for, vai fingir costume depois.
E eu, claro, já estou escolhendo a roupa imaginária para assistir a tudo isso da plateia, julgando mentalmente cada arranjo e aplaudindo de pé quando o exagero vencer a razão, como deve ser.