Eu estava no Café Mambo, em Ibiza, com a primeira taça finalmente na mesa e o sol começando a fazer aquela cena de novela cara no horizonte, quando li: “tentaram sequestrar Xuxa e Letícia Spiller“. Larguei a taça tão rápido que quase criei um novo problema diplomático com o garçom. Porque tem história antiga que parece acervo, mas vem com energia de thriller absurdo.
O caso aconteceu em 7 de agosto de 1991, exatamente 35 anos atrás, e voltou ao noticiário após uma reconstituição do Blog do Acervo, de O Globo. Dois irmãos de São Paulo foram abordados pela polícia nas proximidades do Teatro Fênix, no Jardim Botânico, onde era gravado o Xou da Xuxa.

Tudo começou quando dois policiais militares perceberam um Chevette com placa de São Paulo estacionado irregularmente na Rua Lineu de Paula Machado. Ao se aproximarem do veículo, foram recebidos a tiros. Um soldado morreu após ser atingido no peito e outro ficou gravemente ferido.
Os ocupantes do Chevette fugiram e acabaram perseguidos por seguranças particulares que estavam em um carro-forte e presenciaram o ataque. Foram cerca de um quilômetro de perseguição e troca de tiros pelas ruas da Zona Sul até o veículo entrar na contramão e bater de frente contra um Fiat Uno.
O motorista morreu após ser atingido por um tiro na cabeça. O passageiro, ferido por estilhaços de vidro no pescoço, foi levado em estado grave ao Hospital Miguel Couto.
Foi nesse momento que apareceu uma das frases mais perturbadoras da história. Segundo o relato dado à imprensa na época por um tenente da PM, o sobrevivente teria feito uma confissão dentro da ambulância: “Ele disse que amava Letícia e que a levaria para São Paulo com a Russa”.
A “Russa” era Xuxa Meneghel.
Eu li essa frase duas vezes, respirei fundo e pedi água com gás. Porque a mistura de obsessão, delírio e armamento pesado transforma essa história em um daqueles capítulos que parecem roteiro ruim de suspense até a gente lembrar que aconteceu de verdade.
Os suspeitos foram identificados como os irmãos Alberto e Douglas Loricchio, de 18 e 21 anos. Estudantes e técnicos em eletrônica, eles haviam deixado São Paulo dizendo à família que procurariam emprego no Rio de Janeiro. Na cidade, estavam hospedados no Hotel Praia Leme, próximo ao prédio onde Letícia morava.
Só que foi o que apareceu dentro do Chevette que transformou a investigação.
A polícia encontrou um mapa da região com o Teatro Fênix assinalado. O carro também havia sido adaptado com escopetas embutidas nas partes dianteira e traseira, que poderiam ser acionadas por botões instalados no painel. Dentro do veículo ainda foram encontradas oito granadas de mão e duas bombas.
Eu, que reclamo quando o carro de aplicativo chega sem ar-condicionado, fiquei olhando para essa descrição tentando entender o nível de planejamento. Não era apenas a aproximação de fãs obcecados. Havia mapa, hospedagem próxima a uma das possíveis vítimas, armamento escondido e explosivos.
Enquanto tudo acontecia do lado de fora, Xuxa e as paquitas gravavam normalmente no Teatro Fênix. Marlene Mattos, então diretora da apresentadora, tentou evitar que ela soubesse do ocorrido para não prejudicar as gravações. No fim da tarde, porém, os comentários já haviam tomado conta dos bastidores.
Ao deixar o camarim e perceber a concentração de jornalistas, Xuxa antecipou: “O que é que houve que vocês estão todos aqui? Se é sobre o que aconteceu aí fora, eu não vou falar nada”.
Mais tarde, Marlene contou a O Globo que a apresentadora chegou abalada em casa, abraçou o cachorro e chorou. “Olha aí, quase que não volto”, teria dito Xuxa.
Letícia Spiller, então com 18 anos e conhecida nacionalmente como a paquita Pituxa Pastel, afirmou na época que nunca havia visto ou conversado com os irmãos. “Não sei o que eles queriam, mas não me entra na cabeça que estivessem planejando algo ruim para a Xuxa”, declarou.
Cinco dias depois da perseguição, Alberto morreu após uma cirurgia no hospital do sistema penitenciário. Douglas já havia morrido durante a ocorrência. Com os dois suspeitos mortos, o inquérito acabou arquivado.

Fiquei ali, com Ibiza ficando dourada na minha frente, pensando que essa história revela um lado muito menos glamouroso da fama dos anos 1990. Enquanto o Brasil enxergava nave, paquitas, figurinos e um fenômeno infantil diante das câmeras, do lado de fora havia uma ameaça que, segundo a investigação da época, envolvia armas, explosivos e um plano que nunca chegou a ser completamente esclarecido.
Trinta e cinco anos depois, talvez seja justamente isso que torne o episódio tão assustador: ninguém jamais descobriu até onde aqueles dois irmãos realmente pretendiam chegar.