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Kátia Flávia
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O novo disco de Jão é Brás Cubas em 14 faixas e quase ninguém reparou

O quinto álbum do cantor chegou no domingo com o título emprestado de Machado de Assis, e a coincidência acaba no título só para quem não abriu o livro. A estrutura inteira do disco funciona como o romance funciona, e isso muda o jeito de ouvir.

Kátia Flávia

27/07/2026 10h15

Jão lançou Memórias Póstumas e despertou comparações com a obra de Machado de Assis.

Jão lançou Memórias Póstumas e despertou comparações com a obra de Machado de Assis.

Estou no salão desde as dez, com a cabeça cheia de papelote e o celular apoiado no espelho, e o rapaz que lava cabelo colocou o disco novo do Jão no alto falante do balcão. Ouvi as catorze faixas inteiras entre a escova e o café, o que já diz alguma coisa sobre a duração do meu penteado. E aí, na terceira música, eu larguei a revista e comecei a rir sozinha, porque a ficha caiu de uma vez.

Vamos ao que aconteceu primeiro. Jão lançou “Memórias Póstumas” no domingo às 21h, quinto álbum de estúdio, catorze faixas, nenhuma participação, equipe minúscula formada basicamente por ele, pelo namorado e diretor criativo Pedro Tófani e pelo produtor Zebu. Antes disso, reuniu cerca de 15 mil pessoas no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, para ouvir o projeto de graça na companhia dele. Voltava de um hiato de mais de um ano, aberto depois da SuperTurnê, período em que perdeu o pai. As duas avós já haviam morrido antes da pausa. O disco fala disso do começo ao fim, sem eufemismo, começando pela faixa de abertura que encara a ausência do pai de frente.

Agora a parte que ninguém contou. O romance de Machado é narrado por um homem que já está morto e resolve escrever a própria vida do fim para o começo, com uma liberdade que só um defunto tem, porque defunto não precisa mais agradar plateia nenhuma. Machado abre o livro dedicando a obra ao verme que roeu o cadáver e mais adiante escreve que cada estação da vida é uma edição corrigida da anterior, até a edição definitiva que o editor entrega de graça aos vermes. Jão fez exatamente esse movimento. Ele passou o hiato inteiro morto para o público, sumiu das redes, apagou o passado do feed, e voltou narrando de dentro do próprio silêncio, contando a fase mais dura da vida dele para gente que não estava lá quando aconteceu. No e mail que mandou aos fãs, ele escreveu que teve um ano estranho e que fazer o disco foi como contar tudo enquanto ninguém escutava. Isso é a premissa do livro em uma frase.

E os visuais completam a brincadeira com uma elegância que merece aplauso. No teaser, uma senhora de cabelo grisalho quebra o vidro do carro dele e passa a persegui lo por cenário após cenário, enquanto fotos da infância dele piscam na tela. Na capa, assinada pelo francês Hugo Comte, o mesmo fotógrafo do disco que redefiniu a Dua Lipa, essa mesma senhora está pilotando a moto e ele vai na garupa, de roupa social e flor na orelha, entregue. Ou seja: a Morte deixou de ser a perseguidora e virou a condutora, e ele aceitou a carona. Quem leu Machado sabe que Brás Cubas também precisa ser carregado por uma figura feminina antes de entender qualquer coisa sobre a própria existência. Não é homenagem decorativa. É leitura feita com atenção.

Fica aqui minha observação de quem ouviu tudo de touca no salão: o Brasil andou reclamando que a nova geração da música não lê nada, e um menino de trinta e um anos acabou de transformar o romance mais debochado da literatura nacional em disco de luto sem citar o autor uma única vez dentro das letras. Machado, que morreu sem saber o que era streaming, estreou no domingo em catorze faixas. E eu saí do salão com a escova impecável e uma vontade absurda de reler o livro.

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