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Kátia Flávia
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O meu Deus!, Guarda Juju da Praça É Nossa se foi

Roberto Marquis morreu aos 83 anos na segunda-feira, 23, e deixou um dos personagens mais lembrados do humor popular na televisão. Conhecido nacionalmente como o Guarda Juju de A Praça É Nossa, ele construiu uma carreira longa na TV, na publicidade, na música e no cinema.

Kátia Flávia

24/03/2026 10h49

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O ator e humorista conhecido por interpretar o icônico Guarda Juju no programa A Praça é Nossa (SBT), morreu na segunda-feira (23) aos 83 anos. (Foto: Reprodução/Itatiaia)

Eu confesso que esse tipo de notícia me desmonta num lugar muito específico, o da memória afetiva mais brasileira possível, aquela que mora no banco da praça, no riso de auditório e no personagem que parecia existir desde sempre. Roberto Marquis morreu aos 83 anos e, com ele, vai embora um pedaço muito reconhecível da televisão popular. Para muita gente, ele será eternamente o Guarda Juju, figura que atravessou décadas e virou patrimônio sentimental de quem cresceu vendo humor na TV aberta com cara de casa de vó ligada no SBT.

O fato é direto e triste. O ator e humorista morreu na segunda-feira, 23, aos 83 anos. O SBT lamentou a perda e destacou a trajetória dele em A Praça É Nossa, onde viveu o longevo Teobaldo, o memorável Guarda Juju, além de outros papéis como Tanake e Osório. A emissora ainda descreveu Marquis como uma presença solícita, gentil e sempre pronta para fazer rir, sublinhando também o carinho que ele deixava entre colegas e plateia. A família não revelou a causa da morte.

E aqui entra uma coisa que eu valorizo muito, o tamanho simbólico de um personagem que vira linguagem popular. O Guarda Juju surgiu ainda na década de 1970, inicialmente para um comercial de TV, e o sucesso foi tão imediato que ele migrou para A Praça É Nossa, onde ficou por cerca de dez anos. Isso não é detalhe. Isso é o tipo de travessia que só acontece com figura que gruda no imaginário coletivo, que sai da propaganda e entra para a cultura popular com crachá vitalício. Tem personagem que passa. Tem personagem que senta no banco da praça e vira parte da família.

Roberto Marquis também não foi só um rosto de um quadro famoso, e eu gosto de lembrar disso porque artista popular no Brasil quase sempre fez mil coisas ao mesmo tempo, sem a pose metida de hoje. Ele começou a carreira em 1962, na extinta TV Tupi, criou bordões publicitários que pegaram no ouvido do público, como o Boko Moko, gravou nove discos ao longo da trajetória, inclusive de marchinhas de Carnaval, e ainda se aventurou no cinema. É uma carreira de artista trabalhador, daqueles que rodaram muito, produziram muito e foram ajudando a costurar o entretenimento brasileiro sem precisar viver de grife de prestígio.

Eu acho bonito, e um pouco cruel também, como certas mortes nos obrigam a rever o que a televisão fazia com tanta naturalidade, criar figuras que moravam no país inteiro ao mesmo tempo. O humor de A Praça É Nossa tinha esse poder de transformar intérpretes em visitas recorrentes da sala de casa. Roberto Marquis fazia parte disso. Ele não era só um ator lembrado por um papel. Era um rosto que acionava lembrança imediata, sorriso automático e aquela sensação gostosa de “eu sei exatamente quem é”.

A verdade, meu bem, é que a televisão popular brasileira vai ficando com mais silêncio toda vez que um nome desses parte. E eu nem digo silêncio em tom fofo, digo um vazio real de repertório, de presença, de escola mesmo. Roberto Marquis se foi, mas o Guarda Juju continua muito vivo nessa prateleira afetiva onde moram os personagens que o público nunca esquece. E isso, convenhamos, não é pouca coisa para ninguém.

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