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Kátia Flávia
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O acordo Mercosul-União Europeia: oportunidade ou desafio para a indústria brasileira?

Lucas Congo analisa como o maior acordo comercial da história do Mercosul pode impulsionar exportações, atrair investimentos e, ao mesmo tempo, exigir uma profunda transformação da indústria nacional

Kátia Flávia

27/07/2026 18h00

Lucas Congo analisa como o acordo entre Mercosul e União Europeia pode transformar a indústria brasileira.

Lucas Congo analisa como o acordo entre Mercosul e União Europeia pode transformar a indústria brasileira.

Depois de mais de duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente começou a sair do papel. Com sua entrada em vigor provisória em 2026, o tratado cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo aproximadamente 720 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado superior a US$ 22 trilhões.

O impacto vai muito além da redução de tarifas. O acordo inaugura uma nova fase para a indústria brasileira, ampliando oportunidades de exportação, atraindo investimentos e aproximando o país das cadeias globais de produção. Ao mesmo tempo, coloca empresas nacionais diante de um cenário de concorrência muito mais intensa, em que competitividade, inovação e eficiência deixam de ser diferenciais para se tornarem requisitos básicos.

Para o especialista em comércio exterior Lucas Congo, o debate não deve ser reduzido à pergunta se o acordo é positivo ou negativo.

“A grande questão não é se o acordo representa uma oportunidade ou um desafio. Ele representa os dois. O resultado dependerá da capacidade que as empresas brasileiras terão para se adaptar a um ambiente internacional muito mais competitivo”, afirma.

O tratado prevê a eliminação gradual de tarifas para mais de cinco mil produtos brasileiros vendidos ao mercado europeu. Desse total, aproximadamente 93% correspondem a bens industriais, que passarão a contar com tarifa zero de forma imediata ou ao longo dos próximos anos.

Na prática, isso significa ampliar o acesso das empresas brasileiras a um dos mercados mais sofisticados do mundo, criando condições para aumentar exportações, diversificar destinos comerciais e estimular novos investimentos.

Segundo Lucas Congo, essa abertura fortalece a inserção internacional do Brasil, mas também aumenta o nível de exigência sobre quem deseja competir.

“A abertura comercial oferece novas oportunidades, mas ela também eleva o padrão de competitividade. Não basta produzir. Será necessário produzir melhor, com mais eficiência, qualidade, inovação e previsibilidade.”

Entre os setores mais beneficiados estão o agronegócio, que conquistou novas cotas de exportação para carnes, açúcar e etanol, além das indústrias química, têxtil e calçadista.

A indústria química, por exemplo, poderá reduzir custos na importação de insumos tecnológicos, favorecendo investimentos em bioeconomia e química verde. Já o setor calçadista projeta um crescimento significativo nas exportações ao longo dos próximos anos graças à eliminação de tarifas em diversas categorias de produtos.

No entanto, o cenário é diferente para segmentos da indústria de transformação pesada.

Setores como automotivo, máquinas e equipamentos e parte da metalurgia passarão a disputar espaço com empresas europeias altamente tecnologizadas. Embora o Mercosul tenha negociado prazos de até 15 anos para a abertura de diversos segmentos considerados sensíveis — chegando a 30 anos para determinadas tecnologias automotivas — o tempo deverá ser utilizado como um período de preparação, e não de acomodação.

Na avaliação de Lucas Congo, o maior concorrente da indústria brasileira continua sendo suas próprias limitações estruturais.

“O maior desafio não está na concorrência europeia. Está dentro do Brasil. Carga tributária elevada, logística cara, burocracia, baixa produtividade e dificuldades para investir em tecnologia continuam reduzindo nossa competitividade.”

Essa realidade afeta especialmente as pequenas e médias empresas, responsáveis por quase metade dos empregos industriais do país.

Sem escala suficiente para diluir custos e, muitas vezes, com dificuldade de acesso a crédito e inovação, essas empresas precisarão acelerar investimentos em gestão, digitalização e modernização produtiva.

“Pequenas empresas não estão condenadas a perder mercado. Mas elas precisarão ganhar produtividade rapidamente. O acordo favorece quem consegue competir em qualidade, eficiência e planejamento.”

Outro fator que passa a influenciar diretamente a competitividade é a sustentabilidade.

Além da redução tarifária, empresas brasileiras precisarão atender às novas exigências regulatórias impostas pela União Europeia.

Entre elas estão o Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM), que começou a implementar cobranças relacionadas às emissões de carbono incorporadas em determinados produtos importados, e a Lei Antidesmatamento Europeia (EUDR), que exige comprovação da origem sustentável de produtos como soja, café, carne bovina, couro e borracha.

Na prática, critérios ambientais deixam de representar apenas responsabilidade corporativa para se transformarem em requisitos comerciais.

Segundo Lucas Congo, essa mudança altera definitivamente a forma como empresas brasileiras deverão se posicionar internacionalmente.

“Sustentabilidade deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Hoje ela influencia diretamente a competitividade, o acesso a mercados e a atração de investimentos. Empresas que incorporarem essas exigências mais rapidamente estarão em vantagem.”

Ao mesmo tempo, o acordo prevê mecanismos destinados a evitar distorções competitivas. Caso novas regras ambientais europeias criem barreiras consideradas desproporcionais ao comércio, o Mercosul poderá acionar instrumentos de reequilíbrio previstos no tratado, buscando preservar os benefícios negociados.

Além dos impactos comerciais, especialistas também projetam efeitos positivos sobre a economia brasileira.

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estimam ganhos acumulados para o PIB brasileiro até 2040, enquanto análises da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontam aumento da atividade econômica impulsionado pelo crescimento do comércio exterior, da segurança jurídica e da entrada de investimentos estrangeiros.

Na visão de Lucas Congo, o acordo representa uma oportunidade histórica para reposicionar a indústria brasileira no cenário internacional, mas seu sucesso dependerá muito mais das decisões tomadas dentro das empresas do que do tratado em si.

“O acordo abre portas para um mercado extremamente relevante, mas atravessar essas portas dependerá da capacidade das empresas brasileiras de inovar, investir em produtividade e elevar seus padrões de competitividade. Quem entender essa transformação terá condições de crescer. Quem permanecer preso aos antigos modelos encontrará um ambiente cada vez mais difícil.”

Mais do que um tratado comercial, o acordo entre Mercosul e União Europeia inaugura uma nova lógica de competição. A redução das tarifas cria oportunidades inéditas para a indústria brasileira, mas também evidencia que competitividade não será determinada apenas pelo preço, e sim pela capacidade de inovar, produzir com eficiência, atender às exigências internacionais e adaptar-se rapidamente às transformações do comércio global.

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