Eu dei play e senti cheiro de VHS escondido no armário, com fantasia adulta, glamour exagerado e um desconforto que só cresce com os olhos de hoje.
Brasil, segura minha mão porque eu, Kátia Flávia, voltei no tempo sem pedir autorização. Nove Semanas e Meia de Amor reapareceu no catálogo da MUBI e trouxe junto aquela aura de filme que fazia a sessão noturna parecer perigosa. Lançado em 1986, o longa virou símbolo máximo do erotismo oitentista, com Kim Basinger na fase musa etérea e Mickey Rourke encarnando o homem misterioso que parecia saído de um videoclipe de rock cheio de segredos.

Na época, esse filme era o pacote completo do desejo de vitrine. Nova York estilizada, apartamento industrial com luz baixa, trilha sonora que parecia propaganda de perfume caro e cenas que todo mundo comentava baixinho no corredor do cinema. A dança ao som de You Can Leave Your Hat On virou fantasia universal de festa adulta, enquanto os jogos de controle, vendas e provocações passaram a ser tratados como charme sofisticado. No Brasil, virou lenda de locadora. Tinha quem alugasse escondido, tinha casal que usava o filme como termômetro do relacionamento e tinha gente jurando que aquilo era ousadia demais para uma sexta-feira comum.
Avança para agora e a experiência muda de roupa, mas não perde a tensão. Assistir a esse clássico hoje provoca um choque curioso. O que antes era vendido como romance ardente aparece como um retrato desconfortável de relação desequilibrada. O personagem de Mickey Rourke surge sedutor, dominante, elegante, só que também controlador e obcecado em empurrar limites. A personagem de Kim Basinger deixa de parecer uma heroína da libertação sexual e passa a carregar o peso de alguém engolida emocionalmente por uma fantasia que cobra caro.

É aí que o retorno do filme pela MUBI ganha sabor. A geração que maratona séries e discute relacionamento tóxico nas redes encontra um título que mistura glamour, desejo e bandeiras vermelhas num mesmo pacote. Dá para sentir o conflito a cada cena. O prazer está ali, a estética continua sedutora, mas o incômodo cresce junto com a percepção do jogo de poder e da entrega unilateral. O filme vira quase um documento de época sobre como Hollywood embalava relações problemáticas com trilha chique e fotografia elegante.
Também chama atenção como o erotismo desse longa é paciente. Nada de cortes acelerados ou nudez jogada na tela para distrair. A câmera se demora no olhar, nas mãos, na tensão que mistura prazer e desconforto. Para quem assiste hoje com o celular por perto, o filme exige foco, silêncio e uma certa disposição para encarar o que aparece nas entrelinhas. Talvez seja exatamente por isso que ele provoque tanto comentário ao reaparecer numa plataforma conhecida por curadoria e debate.

Colocar esse título na MUBI funciona como resgate histórico com pitada de provocação. O que foi cinema quente de shopping vira objeto de análise cultural, conversa sobre desejo, poder e as fantasias que moldaram gerações. Eu assisti com olhar de quem ama drama e não foge de incômodo. O resultado é um prazer meio culpado, meio curioso, daqueles que fazem a gente pensar enquanto a trilha toca.
O retorno de Nove Semanas e Meia de Amor serve para uma coisa muito clara. Rever o passado com filtro atual dói, provoca e ainda entretém. O proibidão dos anos 80 não voltou só para esquentar catálogo, voltou para lembrar como intensidade já foi confundida com amor e controle já passou por charme adulto. Eu dei play, me remexi no sofá e confirmei. Tem filme que envelhece como vinho. Tem filme que envelhece como alerta piscando em neon. Esse aqui consegue ser os dois ao mesmo tempo.