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Kátia Flávia
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Neymar divide a web e sonho da Copa já não é unanimidade

Um levantamento com mais de 47 mil menções em português mostrou que a ausência de Neymar na convocação reaqueceu as redes, mas sem o consenso de outros tempos. O nome do craque ainda mobiliza torcida, saudade e surto coletivo, só que agora vem acompanhado de uma sombra chata chamada fadiga do personagem.

Kátia Flávia

20/03/2026 12h00

Atualizada 19/03/2026 23h45

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O nome de Neymar Jr. toma conta das redes sociais devido a ausência de seu nome na lista de convocados pelo técnico Carlo Ancelotti

Amores estou aqui em Milão, tentando viver uma existência fina, europeia e minimamente equilibrada, quando o nome de Neymar voltou a pular no meu telefone como ex que sente cheiro de feriado. Desde a última segunda-feira, a ausência do camisa 10 na lista virou um pequeno carnaval digital. E o mais interessante aqui nem é o choro da torcida, é o fato de que o menino Ney ainda arrasta a internet inteira, mas já não arrasta todo mundo para o mesmo lado.

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Neymar virou uma figura dividida entre o craque que o Brasil aprendeu a desejar e o personagem que o Brasil se cansou de administrar

Os números ajudam a organizar a gritaria. Em mais de 47 mil menções analisadas entre segunda e quarta, 66% dos posts tiveram tom neutro, 24% foram negativos e só 10% apareceram como positivos. Ou seja, Neymar continua ocupando espaço, mas não ocupa mais o coração nacional com aquela folga debochada de antigamente. Ele ainda rende conversa, ainda aciona memória afetiva, ainda desperta defesa apaixonada, mas já não vem com passe livre para o altar.

E tem um dado que eu achei delicioso, 3% dos posts citaram de forma literal a palavra “queria”. Isso diz muito. O torcedor brasileiro, que adora um drama com chuteira, ainda quer Neymar na Copa de 2026. Quer porque lembra, quer porque projeta, quer porque se acostumou a tratar o rapaz como capítulo fixo da novela da Seleção. Só que agora esse “queria” vem sem unanimidade, sem hino de fundo e sem aquele verniz automático de herói inevitável. É quase um pedido com ressaca.

Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e a minha leitura é a seguinte. Neymar virou uma figura dividida entre o craque que o Brasil aprendeu a desejar e o personagem que o Brasil se cansou de administrar. Uma parte da torcida olha para ele e ainda enxerga talento, desequilíbrio e solução. Outra já vê desgaste, reincidência, expectativa mal resolvida e um passado recente cheio de ruído. No fundo, a discussão sobre Copa virou também uma discussão sobre paciência.

Passei no aperitivo e já voltei com teoria. Neymar não foi expulso do imaginário popular, longe disso. Ele segue imenso, magnético e perfeitamente capaz de sequestrar o debate com um nome só. Mas a era em que bastava existir para ser consenso parece ter ido passear sem data para voltar. Em Milão, eu resumiria assim, o Brasil ainda quer o craque, só não aguenta mais fingir que ama o pacote completo.

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