Amores, eu vou falar com a franqueza de quem já viu muita escola homenagear artista como se ele fosse peça de museu. Só que a Imperatriz Leopoldinense resolveu fazer diferente e botou Ney Matogrosso no centro do jogo como gente viva, com opinião, com vontade e com aquela aura de quem entra num lugar e muda a temperatura do ambiente.
Porque “Camaleônico” não ficou só no enredo. Ney visitou barracão, acompanhou a construção das alegorias e virou presença de bastidor, daquelas que deixam ritmista com olho brilhando e diretor de harmonia andando mais ereto. O recado foi simples. A escola não estava falando sobre Ney, estava falando com Ney. E ele respondeu.
Nos ensaios, ele foi tratado como talismã, como se a energia dele funcionasse igual benzimento de quadra. Leandro Vieira, que já sabe montar desfile como quem escreve roteiro de série premiada, explorou a ideia do artista mutante, ainda em atividade, sem cara de “tributo de despedida”. A Imperatriz passeou pela teatralidade, pelas fases bicho-homem, pelas imagens andróginas, pelo Ney que nunca coube em moldura, nem em fantasia, nem em rótulo.

E aí veio o capítulo que deixou essa história deliciosa para quem ama bastidor. Ney levou a Imperatriz para o palco do Vivo Rio no show “Bloco na Rua, Em Noite Camaleônica”. Bateria, segmentos da escola e a rainha Iza dividiram cena com ele, como se fosse um ensaio geral de luxo, com plateia pagando para ver o Carnaval nascer fora da avenida. Isso muda a lógica do jogo. Normalmente a escola corre atrás da obra do homenageado. Aqui, o homenageado abriu o próprio show para hospedar a escola.

Na Sapucaí, a apoteose veio com cara de coro. Ney foi ovacionado já na concentração e recebeu aplauso pesado quando apareceu no último carro, coroando um desfile que já nasceu com cara de “mais comentado da temporada”. A mistura do carisma intergeracional dele com a leitura visual arrojada da Imperatriz criou aquele raro momento em que todo mundo, do jovem de camarote ao veterano de arquibancada, parecia torcer junto.
O que fica de “Camaleônico” é uma virada bonita. Ney entrou numa fase em que participa ativamente de como quer ser lembrado, sem esperar a estátua ficar pronta. Depois de cinebiografia, turnês e agora esse Carnaval quase coassinado, ele testa esse limite gostoso entre mito e pessoa, entre personagem e artista que ainda sobe no palco e faz questão de contar a própria versão. E a Imperatriz, claro, sai dessa história com um troféu invisível que vale muito. Relevância, repercussão e um enredo com alma, com o homenageado olhando de volta.