Amores , eu tive que sentar para processar essa informação com a solenidade que ela merece. Em tempos de vínculos curtos, elenco rotativo e artista tratado como delivery de obra, Neusa Borges apareceu para lembrar que ainda existe um tipo de prestígio que não se improvisa com reunião de branding e post bonitinho no Instagram. A atriz assinou contrato vitalício com a Globo. Sim, vitalício. Palavra antiga, chique, pesada, quase um anel de família da televisão.
E isso, meu amor, não é caridade institucional, nem nostalgia decorativa de festa de 60 anos. Isso tem cheiro de reconhecimento de verdade. Aos 84 anos, Neusa recebe um tipo de acordo cada vez mais raro dentro da emissora, hoje concedido a pouquíssimos nomes da casa. Antes dela, Suely Franco também havia firmado um vínculo semelhante. O gesto mostra uma Globo menos apressada e um pouco mais disposta a rever o valor das grandes damas e dos grandes nomes que ajudaram a erguer sua própria mitologia.
Eu acho uma delícia observar esses movimentos porque televisão aberta, no Brasil, sempre funcionou como corte imperial com crachá. Tem a realeza do horário nobre, os nobres do elenco fixo, os agregados talentosos, os esquecidos da ala lateral e, de vez em quando, alguém recebe uma distinção que reorganiza o salão inteiro. Neusa Borges acaba de ganhar uma dessas.
A informação vem num momento em que a Globo vem retomando gradualmente contratos mais duradouros com artistas de peso. Nos últimos anos, a emissora havia desmontado boa parte dos vínculos fixos e empurrado muita gente para o regime por obra. Era o pragmatismo da planilha, aquela religião corporativa que adora chamar corte de custos de modernização. Só que tradição também gera valor, memória também dá retorno e, às vezes, o público quer olhar para uma emissora e reconhecer nela alguma ideia de permanência.
E se existe alguém que carrega essa permanência no corpo e na voz, esse alguém atende por Neusa Borges.
Estamos falando de uma artista que atravessou TV Tupi, Rede Manchete, Band, SBT e Globo, com uma carreira que virou mapa afetivo da dramaturgia brasileira. Na Globo, a estreia em novelas aconteceu em A Escrava Isaura, lá em 1976, e depois vieram títulos como Dancin’ Days, A Indomada, O Clone, América, Salve Jorge e, mais recentemente, Encantado’s. É aquele tipo de currículo que não cabe em legenda apressada. É biografia com lastro.
Em 2025, ela já havia recebido uma homenagem na televisão, com destaque para sua trajetória em um episódio de Tributo. Aquilo já sinalizava uma disposição de olhar para Neusa com o respeito devido. Agora, o contrato vitalício empilha mais uma camada de valor simbólico. E eu adoro símbolo, vocês sabem. Às vezes ele diz mais do que cinco comunicados corporativos e duas entrevistas estrategicamente fofas.
Tem também uma dimensão muito bonita nisso tudo. Neusa Borges não representa apenas uma atriz querida. Ela representa persistência, excelência e presença num país que muitas vezes trata artistas veteranos como se fossem decoração de museu, quando na verdade são parte viva da memória cultural. Dar a ela esse vínculo é também dizer, com todas as letras, que uma trajetória histórica ainda tem peso no presente.
Claro que a Kátia aqui, que jamais perde a chance de ser ligeiramente venenosa, olha para esse gesto e pensa duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é que Neusa merece. Muito. A segunda é que a Globo também sabe o poder de imagem que existe em homenagear uma artista desse tamanho. E sabe mesmo. Só que, desta vez, ainda bem, cálculo e justiça parecem andar de mãos dadas. Milagre corporativo com verniz emocional, coisa rara, mas acontece.
Eu, que sou uma senhora dramática de camarote e vocabulário afetado, confesso que gosto quando a televisão resolve tratar sua própria história com um pouco de reverência. Porque num mercado obcecado por novidade, algoritmo e juventude plastificada, ver Neusa Borges ser colocada nesse lugar de honra tem alguma coisa de reparação elegante. Uma reparação com luz boa, close bonito e pedigree de novela das oito.
No fim da leitura, fiquei com a sensação de que a Globo decidiu fazer uma coisa simples e poderosa. Olhar para uma de suas grandes atrizes e dizer, sem rodeio, que há nomes que não pertencem apenas à grade. Pertencem ao patrimônio emocional do país.