Eu estava em Milão, atravessando a Galleria Vittorio Emanuele II e tentando fingir que minha cabeça estava ocupada só com vitrine cara e café curto, quando me ligaram com o tipo de pauta que entra sem pedir licença. A Netflix resolveu mexer numa das feridas mais pesadas da história brasileira com Emergência Radioativa, série sobre o acidente com o Césio-137. E até aí, vá lá, trauma nacional também vira produto cultural. O problema começou a engrossar de verdade em Goiânia, onde muita gente olhou para a produção e pensou, com razão, “quer contar a nossa tragédia sem nem pisar aqui?”
A irritação não nasce de frescura regional, nasce de memória. O acidente de 1987 não foi só um episódio trágico para arquivo escolar ou documentário de streaming com fotografia caprichada. Foi uma catástrofe real, com morte, contaminação, medo coletivo, estigma social e uma marca que ficou colada na cidade por décadas. Aí vem uma gigante global, reacende o assunto, volta a empurrar o nome Goiânia para as buscas, para as rodas de conversa, para o algoritmo inteiro, mas grava longe dali. Fica com um cheiro meio desagradável de reconstrução sem território, dor sem endereço, luto sem cenário.
Tô conferindo o feed entre uma loja e outra na Via Montenapoleone e já consigo ver a engrenagem funcionando como um reloginho neurótico. O público corre para descobrir o que é real e o que é ficção, os portais fazem fila para comparar cenas com fatos históricos, o Google ferve, e Goiânia volta ao centro da conversa nacional por causa de uma tragédia que nunca deixou completamente de morar ali. Só que, no meio desse surto de interesse tardio, aparece uma pergunta bem menos confortável, quem ganha o direito de narrar uma dor coletiva, e de que jeito faz isso sem parecer que está usando a cidade só como legenda?
Minha leitura, com toda a maldade elegante que me resta, é que a série acertou no timing de audiência e tropeçou no nervo da memória. Porque não basta dizer que quer homenagear, conscientizar, revisitar. Isso é o tipo de vocabulário bonito que o audiovisual adora usar antes de se afastar do chão onde a história realmente aconteceu. Goiânia não está reclamando de detalhe técnico, está reagindo a um tipo muito específico de apagamento, aquele em que a tragédia volta como espetáculo, mas o território que sangrou fica de fora da encenação. É o velho vício brasileiro de transformar trauma em narrativa antes de encarar o que ele deixou de verdade.
Passei no aperitivo e já voltei com teoria. A Netflix achou que estava só revivendo um capítulo forte da história do país, mas acabou esbarrando numa coisa mais espinhosa, pertencimento. Porque tragédia filmada fora pode até render série, busca e debate, mas também rende ressentimento, e dos compreensíveis. No fim, a plataforma reacendeu o Césio-137 para o Brasil inteiro, só esqueceu que Goiânia não assiste a essa história como público. Goiânia assiste como cicatriz.