A atriz Tânia Maria, de 79 anos, publicou um vídeo para pedir que idosos participem das eleições e não deixem a decisão política exclusivamente nas mãos das gerações mais jovens. “Não vamos deixar os novos decidirem por nós”, afirmou a intérprete de Dona Sebastiana em “O Agente Secreto”.
Eu estava sentada na manicure em Sintra, escolhendo o esmalte enquanto ela começava a cuidar das minhas mãos, quando vi Tânia Maria dando esse recado. E pensei: ela não está pedindo licença para existir; ela está lembrando que idade não apaga voto, história, memória nem vontade de decidir o próprio futuro. “Nós, que temos experiência, vamos votar”, declarou a atriz. E eu acho um luxo ela dizer o óbvio que tanta gente insiste em esquecer: envelhecer não é se retirar da vida pública para deixar os outros escolherem tudo por você.

Tânia começou a trabalhar no cinema aos 72 anos, depois de uma vida como costureira e artesã. Sua estreia foi em “Bacurau”, de 2019, dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Tem gente que acha que depois dos 70 só existe cadeira de balanço; ela foi lá, entrou numa produção premiada e calou muita boca.
Em “O Agente Secreto”, lançado em 2025, Tânia viveu Dona Sebastiana e ganhou projeção dentro e fora do Brasil. O trabalho rendeu a ela o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante da Associação de Críticos de Santiago de Compostela. Eu olho para essa trajetória e vejo uma mulher que não aceitou ser colocada numa prateleira só porque o calendário virou.
“Dizem que de 70 anos ninguém quer mais nada, mas é com 70 anos que a gente pode viver”, disse ela. Minha filha, essa frase devia estar estampada em outdoor, fila de banco, rodoviária e, principalmente, na cabeça de quem trata gente mais velha como figurante da própria história.

O vídeo da atriz chega num momento em que o debate eleitoral tenta dividir o país por idade, religião, renda e qualquer outra caixinha disponível. Tânia resolveu falar diretamente com quem acumulou décadas de vida, trabalho, perdas, alegrias e, acima de tudo, direito de escolha.
Eu continuo aqui na manicure, acompanhando o esmalte ganhar forma e pensando que Tânia Maria acabou de dar uma aula sem precisar levantar a voz. Não é sobre os jovens se calarem; é sobre ninguém achar que pode apagar quem viveu, construiu e ainda tem muito a dizer.