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Kátia Flávia
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“Não ia para o ar”: ator expõe censura a beijo gay nos bastidores da Globo

João Pedro Oliveira contou que gravou várias cenas de beijo com Pedro Alves em “Malhação: Toda Forma de Amar”, mas as sequências eram cortadas antes de chegar ao público

Kátia Flávia

11/06/2026 18h15

João Pedro Oliveira revelou censura a beijo gay em “Malhação”

João Pedro Oliveira revelou censura a beijo gay em “Malhação”

João Pedro Oliveira revelou que cenas de beijo gay entre os personagens Guga e Serginho foram cortadas durante a exibição de “Malhação: Toda Forma de Amar”, última temporada inédita da tradicional novela adolescente da Globo, exibida entre 2019 e 2020. A declaração foi feita durante participação do ator no programa “Sem Censura”, da TV Brasil.

Eu já tinha me acomodado no sofá para acompanhar a movimentação da Copa, com petiscos espalhados pela mesa e o celular alternando entre grupo de família e grupo de jornalistas, quando apareceu um daqueles bastidores que fazem a gente largar o controle remoto por alguns minutos. João Pedro Oliveira abriu o jogo sobre a história de amor entre Serginho e Guga em “Malhação” e contou que o público viu muito menos do que realmente foi gravado.

Na trama, João Pedro interpretava Serginho, jovem que vivia um relacionamento com Guga, personagem de Pedro Alves. Segundo o ator, o casal avançava na narrativa, mas as demonstrações de afeto entre os dois encontravam obstáculos antes mesmo de chegar à tela.

“Naquele momento, a gente estava em um outro governo, era uma outra lógica, uma outra história, em um momento muito conturbado no Brasil”, relembrou o ator ao comentar o contexto político da época.

De acordo com João Pedro, havia uma expectativa constante entre elenco e produção para que o relacionamento dos personagens fosse retratado com a mesma naturalidade dedicada aos demais casais da novela.

“A gente ficava muito na expectativa de: ‘Quando vem esse beijo? Quando que, de forma explícita, eles são um casal? Quando isso vai se estabelecer?’”, afirmou.

O ator revelou que diversas cenas chegaram a ser gravadas, mas acabavam não sendo exibidas.

“Gravamos umas cinco cenas de beijo e nenhuma rolava. Não ia para o ar”, contou.

Mesmo diante das dificuldades, João Pedro e Pedro Alves decidiram abraçar a responsabilidade da trama e seguir defendendo a importância daquela representação.

“Nosso pensamento era: ‘A gente está lutando muito, a gente vai fazer essa história virar uma coisa grandiosa e, até o final, com certeza vai ter a cena de beijo’. Eu e o Pedro abraçamos isso para fazer acontecer”, relembrou.

Quando o primeiro beijo entre os personagens finalmente foi exibido, o momento teve impacto também na vida pessoal do ator. João Pedro contou que assistiu à cena ao lado da família em um período em que ainda não havia falado abertamente sobre sua orientação sexual com os parentes.

“Fiquei observando a reação dos familiares e todo mundo assim [chocado]. E nas redes sociais bombando, um monte de mensagens, algumas maravilhosas e outras nem tanto”, relatou.

Apesar da repercussão, ele considera a exibição do beijo um marco importante para a televisão brasileira.

“Rolou e foi fantástico. Foi um marco, de fato, porque foi um beijo explícito, não houve nenhuma censura, e era exatamente o que a gente queria”, afirmou.

Exibida entre 2019 e 2020, “Malhação: Toda Forma de Amar” acabou se tornando a última temporada inédita da franquia na Globo. O trabalho também marcou a única participação de João Pedro Oliveira na emissora.

Atualmente, além da carreira de ator, ele também se dedica ao cinema. Cria do Morro do Pau da Bandeira, no Rio de Janeiro, lançou recentemente seu primeiro curta-metragem como diretor, “No Fim do Déjà Vu”, produção que conquistou prêmios internacionais e foi selecionada para o Festival de Cannes.

Entre os muitos debates sobre representatividade na televisão, o relato de João Pedro ajuda a iluminar os bastidores de uma época em que determinadas histórias ainda enfrentavam resistência para chegar ao público. E quando um beijo precisa ser gravado várias vezes para finalmente existir na tela, a discussão deixa de ser apenas sobre ficção e passa a falar sobre os limites que a própria sociedade impõe às histórias que escolhe contar.

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