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Kátia Flávia
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Não foi “só uma cena”: por que a imagem de Carla Perez nos ombros de um segurança negro é lida como racismo estrutural

A despedida carnavalesca de Carla Perez virou debate nacional ao expor símbolos históricos que o Brasil insiste em fingir que não vê. Em Salvador, a imagem saiu do trio e caiu direto no colo do racismo estrutural.

Kátia Flávia

17/02/2026 8h33

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Carla Perez foi acusada de racismo por subir nos ombros de segurança negro no carnaval de Salvador. Foto: reprodução/redes sociais

Eu estava pronta para falar de confete, criança sorrindo e nostalgia axé anos 90. Bastou um vídeo rodar nas redes para o Carnaval mudar de figurino e entrar em modo debate sério. A imagem de Carla Perez, branca, sorridente, erguida nos ombros de um segurança negro no circuito Osmar, em Salvador, abriu um daqueles incômodos que não dá para maquiar com glitter.

Não foi apenas uma cena bonita de despedida. Foi uma imagem dura. A própria Carla usa essa palavra. E quando até a protagonista reconhece a dureza do quadro, não dá para fingir que é exagero de internet mal-humorada.

O vídeo foi registrado no domingo, durante a última puxada do trio Pipoca Doce, encerrando o projeto Algodão Doce, pensado para crianças. A intenção, segundo Carla, era simples e afetiva. Subir nos ombros do segurança ajudaria a se aproximar do público infantil, por conta da estatura. Funcional no roteiro. Problemático no enquadramento.

Porque imagem não pergunta intenção antes de falar. Ela fala sozinha. E essa composição visual específica acorda fantasmas antigos demais para serem tratados como ruído passageiro. Mulher branca no alto, centro do espetáculo, sustentada pelo corpo negro que aparece como base, suporte físico, meio para o brilho alheio. O Brasil já viu esse filme. Muitas vezes. Em séculos diferentes.

Nas redes, a leitura foi imediata. Comentários lembraram a figura da sinhá carregada pelo homem negro, com frases que doem justamente por não serem novas. A crítica não partiu do nada. Partiu da memória coletiva de um país moldado pela escravidão e por hierarquias raciais que seguem operando, mesmo quando ninguém se declara racista.

No pronunciamento, Carla reconheceu que a cena ultrapassa a intenção individual e toca em desigualdades históricas. Disse que nada justifica. Absolutamente nada. Assumiu o erro, pediu desculpas e falou em compromisso com o combate ao racismo estrutural. Não veio com deboche, nem com defesa atravessada. Veio com reconhecimento público do impacto.

É aqui que o debate ganha densidade. Racismo estrutural não precisa de ofensa explícita, xingamento ou maldade declarada. Ele aparece no automático social, nas imagens normalizadas, nos gestos que parecem inofensivos para uns e violentos para outros. A cena não nasce do ódio, mas da repetição de uma lógica antiga que insiste em sobreviver.

Quando isso acontece no Carnaval de Salvador, festa construída por corpos negros, por trabalhadores negros, por uma cultura negra que sustenta o espetáculo, o incômodo cresce. O Carnaval vira espelho. E nem sempre o reflexo agrada.

O episódio deixa uma pergunta que não cabe só a Carla. Cabe a artistas, equipes de trio, marcas, camarotes, diretores de cena e todo mundo que decide o que sobe no palco. Quem carrega quem. Quem aparece no alto. Quem sustenta a festa.

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