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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Não é só o príncipe romântico: como Daniel virou guardião da memória sertaneja na Globo

Quarenta anos depois de estrear, Daniel troca o posto de galã do amor sofrido pelo de curador da memória sertaneja, abre a própria fazenda para a Globo e transforma o domingo em altar do sertanejo raiz.

Kátia Flávia

01/02/2026 9h30

Atualizada 31/01/2026 20h34

Quarenta anos depois de estrear, Daniel troca o posto de galã do amor sofrido pelo de curador da memória sertaneja, abre a própria fazenda para a Globo e transforma o domingo em altar do sertanejo raiz.

Eu vou dizer sem pudor, Brasil, porque vivi os anos 90 de gloss na boca e rádio ligado. Daniel não envelheceu, ele se consagrou. O mesmo homem que fez o país inteiro acreditar no amor eterno agora acorda cedo, abre a porteira e assume a missão de proteger o sertanejo como quem protege herança de família. Isso não é fase zen, isso é projeto de vida com trilha sonora de modão.

Na Globo, à frente do Viver Sertanejo, Daniel faz algo que pouca gente teve coragem de fazer na TV aberta. Ele desacelera. Troca o cenário de isopor por chão de terra, o palco por varanda e o roteiro engessado por prosa de gente grande. A fazenda em Brotas vira personagem principal, com fogão a lenha, cavalo passando atrás e viola afinando enquanto o café esquenta. É o sertanejo tratado com respeito, não como trilha de comercial.

Foto: Reprodução/ Instagram @viversertanejonaglobo

E não pense que isso caiu do céu agora. Daniel já vinha nesse papel de guardião muito antes da televisão resolver prestar atenção. Quando todo mundo corria atrás de batida universitária, ele estava trancado em estúdio regravando modas que ouviu do pai, aquelas que não pedem efeito, só sentimento. A trilogia “Meu Reino Encantado” virou uma espécie de arquivo emocional do Brasil rural. Depois, ele ainda chamou o pai para cantar junto, como quem carimba em cartório. Isso aqui é herança.

O que ele faz no programa é juntar quem parecia morar em mundos diferentes. Veteranos sentam à mesa com artistas da nova geração, todo mundo cantando a mesma música, cada um com sua história, sem disputa de ego. Daniel não aparece como estrela, aparece como anfitrião. Ele apresenta, escuta, puxa conversa e deixa a música resolver o resto. É um tipo de curadoria afetiva que a TV quase esqueceu como fazer.

Foto: Reprodução/ Instagram @viversertanejonaglobo

Nos palcos, a lógica é idêntica. A turnê e o DVD “Daniel 40 Anos: Celebra João Paulo & Daniel” não são só comemoração de carreira, são aula prática de memória popular. As músicas voltam com força, os convidados entram, o público canta como se estivesse revivendo a própria vida. Anos 90 inteiros condensados em refrão, lágrima e coro afinado.

Eu olho para isso tudo e penso que o rótulo de príncipe romântico ficou pequeno demais. Daniel virou o guardião oficial de um gênero que muita gente tentou modernizar rápido demais. Ele não grita, não disputa, não força. Só abre a casa, afina a viola e lembra ao Brasil de onde tudo veio. E convenhamos, meu bem, poucas coisas são mais chiques do que envelhecer virando memória viva.

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